Artigo completo sobre Cervos: fumeiro barrosão aos 828 metros de altitude
Alheiras IGP, ponte medieval e tradições seculares na porta do Parque da Peneda-Gerês
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O fumo sobe lento da chaminé como quem não tem pressa nenhuma. São oito da manhã e a aldeia acorda ao som dos chocalhos - aquela manada maronesa que desce todos os dias para os lameiros, como se tivesse o caminho marcado na cabeça. A 828 metros, no meio do Gerês, os 227 habitantes de Cervos sabem que o Inverno barrosão não perdoa: é preciso fumeiro na lareira e lenha seca.
A alma do fumeiro
Dizem por aí que aqui se faz uma alheira por habitante por dia durante o Inverno. Não sei se é bem assim, mas no "Sabores do Barroso" as mãos não param - massa de pão, alho e carne de porco bísaro a encher tripas que depois vão para o fumeiro. O segredo é o fumo de castanheiro e carvalho que se infiltra durante semanas. Dá aquele sabor que não se explica, só se sente.
No domingo de Pentecostes, o largo da igreja transforma-se: salpicão, chouriço de abóbora, sangueira e presunto de Vinhais. É a "Festa do Fumeiro" - não é show, é o pessoal a mostrar o que faz todos os dias.
Pedra, água e fé
A Igreja Matriz está ali no meio, com aquele retábulo de talha que brilha à luz das velas. Os azulejos contam histórias de santos - os mesmo que ouvíamos quando éramos miúdos. Lá fora, o cruzeiro marca o sítio desde o século XVIII.
Mais abaixo, a ponte medieval sobre o rio Cervo - a "do Diabo", como lhe chamam. Diz a lenda que um trovador a fez numa noite, trocou a alma por ela. Hoje em dia, os miúdos atiram-se das margens para as lagoas de Verão, sem se lembrarem da história.
Caminho e montanha
O Caminho Nascente de Santiago passa pelo largo - é o único sítio com água potável em doze quilómetros. Os peregrinos enchem os cantis no chafariz que um emigrante, o Manuel Monteiro "O Cervense", mandou fazer. Nunca esqueceu a aldeia.
Do Cruzeiro Alto, ao pôr do sol, a serra do Gerês corta o céu em roxo e cinza. Os grifos planam por cima, como se soubessem que o sítio é deles.
Mãos que criam
Maria da Conceição Gonçalves já se foi em 2005, mas a "malha de Cervos" que ela fazia continua. Na Casa do Pastor, madeira de castanheiro, mantas de lã e queijos em azeite dividem o espaço.
A "Pastoreio com o Pastor" leva quem quiser pelos carvalhais - oito quilómetros onde o gado maronês pasta à vontade. O silêncio só é quebrado pelo murmúrio dos regatos.
No cemitério, há uma campa em forma de alheira. É do "Rei da Chouriças", comerciante do século XIX que fez fortuna a vender fumeiro ao Porto. É daquelas coisas que só em Cervos é que se vê: até a morte cheira a alho e fumo de lenha.