Artigo completo sobre Covelo do Gerês: aldeia serrana entre caretos e pedra
Freguesia de Montalegre onde o silêncio da serra se cruza com tradições centenárias do Barroso
Ocultar artigo Ler artigo completo
A bruma da manhã demora-se nos carvalhais e o som do ribeiro da Lapa chega limpo, sem competir com motor algum. Covelo do Gerês acorda devagar, as suas cento e sessenta e seis almas — sim, contam-se de cor — distribuídas por mais de mil hectares de encosta granítica onde a serra se abre em socalcos de urze e giesta. Aqui, no limiar do Parque Nacional da Peneda-Gerês, o silêncio não é ausência — é presença densa, quase táctil, feita de vento nos cimos e água a correr sobre pedra escura. Quando o nevoeiro fecha, parece que o mundo acaba na curva da estrada. Não acaba: é só o Gerês a lembrar-nos o lugar que ocupamos.
Pedra que guarda memória
A Igreja Paroquial de São Vicente está onde sempre esteve — no centro da aldeia, fachada barroca em granito cinzento que o musgo coloniza nas juntas como quem preenche uma ficha de presença. Dentro, a talha dourada do retábulo capta a luz oblíqua das janelas laterais e os azulejos setecentistas mostram cenas bíblicas desbotadas pelo tempo. Mais acima, no lugar de Cimo de Vila, a Capela de Nossa Senhora da Piedade marca o Caminho Nascente de Santiago — um dos troços mais solitários do itinerário português, percorrido por menos de quinhentos peregrinos por ano. Dizem que muitos desistem em Soajo: os que chegam a Covelo são os teimosos de serviço. A ponte medieval sobre o ribeiro da Lapa conserva o seu arco ogival intacto, cada bloco de granito encaixado sem argamossa, testemunho de uma engenharia que atravessou séculos e ainda leva as vacas para o outro lado.
Entre caretos e fogueiras
No primeiro domingo de maio, procissão e fogueiras sobem até ao adro da igreja e o ar enche-se do cheiro a bolo doce distribuído pelos devotos. A Festa do Senhor da Piedade ainda reúne famílias dispersas pelo país — é quando a aldeia duplica de tamanho e as casas que estão vazias o resto do ano acordam com gente a dormir no sofá. No Entrudo, os Caretos de Covelo tomam as ruas — máscaras de madeira esculpida, trajes de lã colorida, concertinas que ecoam nos muros de xisto. São poucos, mas fazem barulho que chegue para os montes. Em agosto, os fiéis sobem a pé até ao alto da serra para a missa campal da Senhora do Pranto, os pés a marcar ritmo na terra seca enquanto o vale se desenha lá em baixo, verde e ocre. Levem água: são 8 quilómetros para cima, e o café só abre no fim-de-semana.
À mesa do Barroso
Cabrito assado na brasa, arroz de carne maronesa, rojões à moda de Covelo: a gastronomia barrosã é literal, sem eufemismos. A alheira de Barroso-Montalegre IGP chega fumada, densa, acompanhada de batata de Trás-os-Montes IGP cozida e broa de milho ainda quente. O chouriço de abóbora, doce e especiado, divide a mesa com o salpicão curado e o queijo de ovelha. Para sobremesa, mel de Barroso DOP sobre fatia de bolo de ferradura — ou como lhe chamam cá, "bolo de ferradura", porque ferradura é ferradura e não há outro nome. O vinho verde, branco e ligeiramente gasoso, vem das vinhas em socalco que descem até à albufeira da Caniçada. Se o Sr. António lhe oferecer um copo de aguardente caseira, aceite: é educação, e depois não se queixe se recusar.
Trilhos onde o lobo ainda passa
O Trilho da Senhora do Pranto sobe quatro quilómetros entre matos de urze e afloramentos graníticos até ao miradouro da Franqueira. Ao pôr do sol, grifos planam sobre os cimos e o vale do rio Homem desenha-se em tons de bronze. Se ouvir um uivo, não é o vizhor: é mesmo o lobo, que ainda desce para aqui quando a neve aperta nas cotas altas. Mais abaixo, a Queda da Cabra forma poças naturais onde a água permanece gelada mesmo em agosto — os miúdos saltam de pontes improvisadas, os pais fingem que não veem. O Caminho do Xertelo conduz às ruínas de um moinho hidráulico, roda de madeira parada, pedra de moer coberta de musgo. A aldeia de Xertelo conserva um espigueiro com doze pés de madeira — sete metros de altura, o mais alto do concelho —, estrutura vertical que desafia o vento e a neve ocasional. Dizem que cabem 60 sacos de milho lá dentro; eu digo que cabem 60 sacos e meio, mas ninguém me quer acreditar.
Quando a tarde cai e as últimas ovelhas descem dos brandos, o eco dos chocalhos fica suspenso entre os muros de granito. Não há pressa que resista a esse som antigo — é o sinal de que o dia acabou, que a noite chegou, e que amanhã há sopa de nabada para o almoço. Se passar por cá, bata à porta da casa com a porta azul: a D. Idalina está sempre à janela, e tem café feito.