Artigo completo sobre Morgade: Vida a 962 Metros no Planalto de Barroso
Freguesia na orla do Gerês onde o fumeiro, os lameiros e o silêncio definem o quotidiano de altitude
Ocultar artigo Ler artigo completo
A luz da manhã raspa o planalto e espalha sombras compridas pelos lameiros. Aqui, a 962 metros de altitude, o frio da noite demora a soltar-se da terra — mesmo em Agosto, o ar corta. Morgade respira devagar, com o ritmo das 195 pessoas que permanecem. Dizem que são 195, mas na taberna apostava-se em menos. O granito aflora entre o verde dos prados como dentes velhos que se recusam a cair. O silêncio só é interrompido pelo sino da igreja — quando o vento não o leva — ou pelo mugido distante de uma vaca maronesa que parece dizer-nos qualquer co sobre a vida.
Fronteira do Parque
Morgade fica na orla do Gerês, onde a montanha dita as regras e o tempo faz o que lhe apetece. Os 2114 hectares estendem-se entre encostas que fazem os joelhos reclamarem e vales fundos onde os móveis de pedra parecem ter crescido ali desde sempre. A paisagem muda com a altitude: carvalhos e castanheiros nas cotas mais baixas, vegetação rasteira e afloramentos rochosos à medida que se sobe. Caminhar aqui exige fôlego — não apenas pela inclinação, mas porque o ar rarefeito nos lembra que os pulmões da cidade são uns meninos.
O Caminho Nascente de Santiago atravessa estas terras, trazendo peregrinos que sobem a custo as rampas de terra batida. Poucos ficam — a maioria segue em frente, carregando a mochila e o remorso de não ter parado. Mas quem pára encontra uma Morgade sem pressa, onde o tempo se mede pelas estações da sementeira e da colheita, não pelos ponteiros do relógio. Aliás, o relógio da igreja está parado há anos — ninguém se lembrou de o arranjar, e ninguém parece importar-se.
Fumeiro e Altitude
A gastronomia responde ao clima como quem responde a uma injúria: com firmeza. Aqui, a 962 metros, o frio justifica o fumeiro carregado: alheira de Barroso que se come com a mão porque a faca é para os fracos, chouriça de carne que faz o pão parecer sobremesa, salpicão que se desfia à pressa de tanto bom. As carnes fumadas pendem das traves como troféus de uma guerra contra a fome. O cabrito e o cordeiro de Barroso pastam nos lameiros até ao momento do abate — a carne tem o sabor concentrado da erva de altitude e da água fria das ribeiras, que sabe a gelo e a pedra. O mel de Barroso, denso e escuro, guarda o pólen das urzes e dos castanheiros. Dizem que é um dos melhores do país — quem o diz são os próprios, mas não é por isso que deixa de ser verdade.
As duas moradias de alojamento disponíveis acolhem sobretudo caminhantes e quem procura isolamento deliberado. Não há multidões — a densidade de 9,22 habitantes por quilómetro quadrado garante-o. Com 90 idosos para 15 jovens, Morgade vive o desequilíbrio demográfico comum ao interior montanhoso, mas resiste com a teimosia de quem conhece cada curva do caminho, cada nascente, cada pedra do muro que separa os campos. Conhecem-nas de cor porque são as mesmas de sempre — aqui, o novo é suspeito por definição.
Duas Devoções
A Festa do Senhor da Piedade e a Senhora do Pranto pontuam o calendário religioso como pontos de exclamação num texto que é maioritariamente reticências. Durante esses dias, a população triplica e a aldeia ganha vozes que não sabia ter. Os emigrantes regressam com licor estrangeiro e sotaque de regresso, os tabuleiros enchem-se de chouriço assado e pão de milho que parece feito de sol e tradição, e a música ecoa até tarde — ou até o vizinho do lado pedir para baixar porque tem que trabalhar de madrugada. Depois, o silêncio volta, denso como o nevoeiro que sobe do vale nas manhãs de Outono e faz as casas parecerem barcos perdidos no mar.
Quando a noite cai sobre Morgade, o céu abre-se negro e profundo, sem poluição luminosa para competir com as estrelas. O frio aperta como um familiar que não percebeu que a visita já durou demasiado, o granito das casas guarda o calor do dia durante escassos minutos, e o fumo das lareiras sobe direito até se dissolver na escuridão. É este contraste — entre a dureza do território e a persistência da vida — que define a freguesia: não pelo que promete, mas pelo que exige de quem aqui permanece. E exige muito — mas dá pouco, é verdade. No entanto, quem fica não parece querer outra coisa.