Vista aerea de Solveira
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Vila Real · CULTURA

Solveira: onde o forno comunitário ainda marca o tempo

Aldeia transmontana a 851m preserva torre sineira, tesouros do Bronze Final e rituais ancestrais

150 hab.
851 m alt.

O que ver e fazer em Solveira

Produtos com Denominação de Origem

Áreas protegidas

Festas e romarias em Montalegre

Agosto
Festa do Senhor da Piedade Dias 23 e 24 festa popular
Senhora do Pranto Romaria da Nossa Senhora da Abadia | Sta Maria de Bouro – Amares festa popular
ARTIGO

Artigo completo sobre Solveira: onde o forno comunitário ainda marca o tempo

Aldeia transmontana a 851m preserva torre sineira, tesouros do Bronze Final e rituais ancestrais

Ocultar artigo Ler artigo completo

O fumo sobe pela chaminé do forno comunitário como quem não tem pressa. Não é branco — é cinza-azulado, cheio de pedacinhos de fuligem que se perdem no céu de fim de tarde. Dentro, as broas estalam com som de vidro a ceder. A Maria do Outeiro, de óculos na ponta do nariz, vira cada uma com a pá de madeira como quem manuseia um bebé. No caderno, ao lado do registo dela — «6 pães» — há uma mancha de óleo de azeite e uma impressão digital em farinha. A 851 metros, Solveira continua a fazer pão como se o mundo não tivesse inventado outra coisa.

A torre que não era torre

No meio da aldeia, o que parece campanário é só pedra amontoada com buraco para a sineta. Nunca teve campânula — tinha um ferro com furo que soava quando o junta batia com uma chave inglesa. servia para marcar a hora da sega, do baptizado, do falecimento. Hoje está lá, mas ninguém toca. A sineta foi parar à casa do António, que a guarda na mesa-de-cabeceira como quem guarda um dente de leite. A igreja de Santa Eufémia, ao lado, tem a porta desalinhada do peso dos séculos. Dentro, cheira a cera quente e a roupa guardada. A imagem da santa tem o rosto descascado onde as mãos a tocam todos os anos na procissão.

O que o tempo deixou

No sítio dos Moinhos de Golas, ainda se encontram pedras com sulcos — não se sabe se de moinho ou de lagar. Quando se lava batatas ali, às vezes aparece um tachinho de cobre ou um anel de latão. O pessoal diz que são os «mouros», mas são só os antigos que ninguém sabe quem foram. No entanto, guardam-se em caixas de sapatos, como se fossem fotografias de família.

Festa de fé e farinha

No domingo depois do 8 de Setembro, o Senhor da Piedade sai à rua. A procissão desce devagar porque as ruas são de lajes e a imagem pesa. A banda toca «Ave Maria» com a concertina a desafinar. Na porta da igreja, a D. Amélia corta o bolo doce com uma faca de serra — cada fatia tem um papelzinho com o nome de quem contribuiu com ovo ou farinha. Em Maio, a Senhora do Pranto vai até ao cruzeiro, e depois fazem-se fogueiras com lenha de sobreiro. As raparigas novas cantam o «Ó Maria, Senhora do Pranto» enquanto os rapazes roubam lenha aos celeiros dos avós. No fim do ano, os miúdos ainda batem de porta em porta a pedir o «bolo-ranço». As pessoas dão-lhes pão com toucinho ou um pedaço de broa; ninguém lhes pergunta de onde vêm.

O que se come quando se é de cá

A alheira vai ao prato sem ser cortada — parte-se com a mão, como se fosse pão. A gordura escorre e mistura-se com os grelos que a vizinha trouxe no avental. O cabrito não é de forno — é de tacho, com molho de vinho e colorau que deixa a loiça avermelhada durante três lavagens. No fumeiro da Loja do Zezinho, as chouriças pendem ao alcance da mão, e ele deixa provar um bocadinho antes de pesar. O mel é do Eduardo, que não é de Solveira mas vem de Portelinha — é escuro, quase preto, e cheira a medronheiro. As cavacas são feitas com banha de porco que ainda ferve quando se deita para a farinha. Quem não bebe vinho, bebe água do poço. A cerveja artesanal é do concelho, mas custa o dobro do vinho da tasca.

O caminho que leva a lado nenhum e a todo o lado

A vereda começa atrás da casa do cemitério, onde a terra cheira a urze molhada. Passa-se pelo poço de São João, que não é poço — é uma lagoa onde as crianças se atiram de bruços para apanhar libélulas. Segue-se por entre carvalhais onde os javalis levantam a terra como quem abre uma cama. No miradouro, o Larouco aparece inteiro, com as antenas no cimo a piscar como olhos de gato. No outono, os castanhais rendem sacos que se carregam às costas, um a um. O magusto faz-se no forno comunitário depois do pão — as castanhas ficam com gosto a fumo e a borra de azeite.

Quando a última broa sai e o forno arrefece, o cheiro a lenha fica preso às roupas como um perfume que não se vende. Solveira não precisa de sineta — basta estar quieto e ouvir o ribeiro a correr debaixo da ponte, ou o roçar das vacas maronesas nos lameiros. Quem vem de fora pensa que é silêncio. Quem é de cá sabe que é a aldeia a falar.

Dados de interesse

Distrito
Vila Real
Concelho
Montalegre
DICOFRE
170631
Arquetipo
CULTURA
Tier
basic

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteComboio a 50.6 km
SaúdeCentro de saúde
Educação7 escolas no concelho
Habitação~687 €/m² compraAcessível
Clima14°C média anual · 1018 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

60
Romance
50
Familia
40
Fotogenia
70
Gastronomia
70
Natureza
20
Historia

Descubra mais freguesias

Explore todas as freguesias de Montalegre, no distrito de Vila Real.

Ver Montalegre

Perguntas frequentes sobre Solveira

Onde fica Solveira?

Solveira é uma freguesia do concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, Portugal. Coordenadas: 41.8463°N, -7.6721°W.

Quantos habitantes tem Solveira?

Solveira tem 150 habitantes, segundo os dados dos Censos.

Qual é a altitude de Solveira?

Solveira situa-se a uma altitude média de 851 metros acima do nível do mar, no distrito de Vila Real.

Ver concelho Ler artigo