Artigo completo sobre Venda Nova e Pondras: vida a mil metros no Barroso
Freguesia transmontana entre o Gerês e os fumeiros, onde o granito marca o ritmo da altitude
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O fumo da lareira sobe tanto quanto a conta do café que a vizinha vai deixando escapar — aquele fumo miudinho que cheira às chouriças de abóbora que o Sr. Almeima pendurou lá por outubro. Aqui, a quase mil metros, o inverno chega antes da sexta-feira e fica até maio parecer terça-feira: as paredes de granito guardam a humidade como quem guarda segredo, e as pedras só secam depois do meio-dia, quando o sol espreita por cima do Viso. Venda Nova e Pondras são dois lugares que parecem ter saido do mesmo bloco de pedra — trezentas e quarenta e quatro pessoas agarradas ao relevo como a unha ao joão.
Nos limites do Gerês
Isto aqui é a porta de entrada oriental do Gerês: o Cávado come-se aos bocados entre blocos de granito, e os lameiros — aqueles quintais verdes que parecem coleções de selos — andam às costelas do gado Maronês que vai pastando como quem passeia. Nos dias sem nevoeiro, o silêncio só é partido pelo “fiuu” da águia-careca que faz a ronda aos carvalhais. O Poço Negro está escondido numa curva do rio: quem lá vai é quem já foi baptizado nas águas geladas do lugar ou quem tem amigos com memória de elefante.
Aqui há menos de dois vizinos por km² — dá para respirar sem pedir licença, para perder o olhar na serra como quem perde o ponto de (não) encontro. A maioria já passou dos sessenta e cinco; vão vinte e duas crianças a correr pelos pátios, mas o futuro delas escreve-se noutras paragens — Braga, Porto, França, Suíça, onde haja redes sociais com sinal decente.
Sabores protegidos do Barroso
Na cozinha, a paisagem seca compensa-se com prato cheio: alheira de Barroso a pingar para o pão, cabrito que esteve no forno mais tempo que o Donald Trump no Twitter, cordeiro que ainda nem deu o primeiro “méeé”. Nos fumeiros, o salpicão, a sangueira e o presunto de Vinhais ganham cura e personalidade — aquela secura que só o fumo de Inverno consegue. O mel, espesso como conversa de tasca, desce lento pelo pão de centeio da manhã. Para acompanhar, há vinhos verdes que, apesar da altitude, fazem-se à vida como quem arranja lugar no estacionamento da praça no sábado à noite.
Caminho e calendário
O Caminho de Santiago Nascente corta a freguesia como quem atravessa a sala sem bater na porta: marcos de granito a espetarem-se no caminho antigo, entre Venda Nova e o alto do Viso, onde a vista abrange mais montanhas que horas de CNN. No Verão, o Senhor da Piedade e a Senhora do Pranto devolvem movimento — procissões, missas campais, gente que não se via desde o casamento da Filomena. É nessa altura que os emigrantes regressam com os seus sotaques misturados e as mochilas cheias de “ó meu Deus, isto aqui ainda é igual”.
Ao entardecer, quando a luz pega fogo ao granito e as sombras se alongam pelos lameiros como sombra de aldrabão, o frio desce das cumeadas. O cão de gado ladra lá ao longe, avisando que o rebanho está de volta. O fumo volta a subir das chaminés — colunas direitas que parecem dizer “estamos cá, como sempre, aguentando firme”.