Artigo completo sobre Candedo: Granito, Vinhas e Sabores Transmontanos
Freguesia de Murça onde o azeite DOP, a carne maronesa e o presunto contam a história da terra
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O sol da tarre ponha-se como quem se senta à mesa — sem pressa, mas com a certeza de que já lá vai meio século a fazer o mesmo. Em Candedo, o silêncio é tão grosso que até o ladrar do cão parece coisa inventada. Dizem que há 821 habitantes, mas ninguém os viu todos ao mesmo tempo. O certo é que, se chegar à hora do lanche, ainda encontra algúem no Café Central a discutir se o melhor azeite é o da oliveira do Joaquim ou a da tripeira da Dona Rosa.
O que a terra dá (e o que o resto do país anda a roubar)
Azeite, presunto, carne maronesa — isto aqui não é novidade nenhuma, é o jantar. O tal azeite DOP que os estrangeiros pagam como se fosse ouro, cá em casa chama-se “óleo” e vai para a sopa quando a garganta está moída de gripe. O presunto de Vinhais cura-se na adega ao lado da lenha, junto com os chouriços que a vizinha Maria faz na época — “para o caseiro não andar a comprar porcarias no Intermarché”.
Se lhe apetecer provar, não vá ao Google. Pergunte na padaria ao Sr. António que ele indica-lhe logo a casa onde ainda se mata o porco ao domingo e se convida quem aparece. Leve tabaco, é sinal de boa-educação.
Viver entre montes (ou como se perdeu o emprego e se ganhou a paz)
Há uma única morada para dormir — é a casa da Dona Amélia, que alugava quartos ao filho quando ele foi para o Porto e agora aluga a quem quer ouvir a história da vida dela. Traga ouvidos e não discuta: ela sabe melhor que ninguém por que é que a aldeia ficou assim.
Quanto a ver, nem sequer há placa a indicar a entrada. Há a estrada municipal que sobe, sobe e de repente deixa cair a aldeia no meio dos soutos. Estacione onde quiser — desde que não bloqueie a porta do Celestino, que às 6h30 já está de trator pronto para as vinhas. Se o convidar para “beber um fino”, aceite. Leve uns amendoins, ele traz o vinho da sua própria vindima. Não fale em Uber, fale em colheita: é mais útil.
O que leva na mochila quando partir? Uma garrafa de azeite que ainda ferva no copo, o cheiro do fumeiro preso ao casaco e a certeza de que, se voltar daqui a dez anos, o Joaquim ainda vai estar no mesmo lugar, a podar a oliveira, a dizer que o Inverno está a chegar mais cedo. Candedo não é destino, é recado: há sítios onde o tempo não passa — fica sentado ao banco, espera que a noite caia e convida-nos para jantar.