Artigo completo sobre Fontelas: onde as fontes alimentam vinhas do Douro
Fontelas, em Peso da Régua, Vila Real, combina fontes ancestrais com vinhas do Douro Vinhateiro. Rota de peregrinos e paisagem UNESCO entre xisto e levadas
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O aroma a lenha mistura-se com o frescor da água que corre nas levadas de pedra. Em Fontelas, o nome não engana: as fontes marcam o ritmo da freguesia desde o século XVI, quando os primeiros moradores se fixaram nestas encostas onde o verde dos vinhedos desenha linhas horizontais sobre o xisto. São 630 habitantes distribuídos por pouco mais de três quilómetros quadrados, numa altitude média de 293 metros que permite avistar o Douro sem perder o contacto com a serra. A água que brota da terra continua a alimentar hortas e a refrescar os dias quentes de Verão, como sempre fez.
Raízes no xisto e na vinha
Quando o Marquês de Pombal demarcou a região em 1756, estabelecendo a primeira região vinícola regulamentada do mundo, estas encostas já produziam uvas. A anexação ao concelho de Peso da Régua em 1837 consolidou a vocação vinícola da freguesia, mas não apagou a memória rural de uma comunidade que sempre viveu entre a vinha e a terra de pão. O xisto que aflora nos socalcos guarda o calor do dia e devolve-o lentamente à noite, criando as condições que tornam o vinho do Porto único. Caminhar entre os patamares é sentir o peso desse trabalho secular: cada muro foi erguido pedra a pedra, cada cepa plantada à mão.
Peregrinos e horizontes
O Caminho Interior do Caminho de Santiago, também conhecido como Via Lusitana, atravessa Fontelas sem pressa. Os peregrinos que seguem esta rota pelo interior norte de Portugal encontram aqui um trecho onde a paisagem vinhateira classificada pela UNESCO como Património Mundial se revela em toda a sua extensão. Não há multidões nem monumentos grandiosos — apenas o som dos passos na calçada, o canto ocasional de um galo, o vento que agita as folhas das videiras. A Via Lusitana exige pernas habituadas ao sobe-desce, mas recompensa com panorâmicas onde o olhar se perde entre vales e cumeadas.
Sabores transmontanos na mesa duriense
A gastronomia de Fontelas reflecte a dupla identidade da região: o Douro vinhateiro e a tradição transmontana. O Presunto de Vinhais IGP, curado artesanalmente segundo métodos ancestrais, chega às mesas locais cortado em fatias finas, com a gordura translúcida e o vermelho intenso da carne de porco bísaro. Acompanha-o, naturalmente, o vinho produzido nas quintas vizinhas — tintos encorpados que pedem tempo e conversa. A produção vitivinícola continua a ser o motor económico da freguesia, mas nas hortas junto às casas ainda se cultivam couves, batatas e feijão, garantindo a autossuficiência que sempre caracterizou estas comunidades rurais.
A Senhora do Socorro e o calendário comunitário
A Festa em honra de Nossa Senhora do Socorro, celebrada no primeiro domingo de Setembro, marca o momento alto do calendário local. As procissões percorrem as ruas estreitas, acompanhadas pelo toque dos sinos da igreja paroquial e pelo cântico das rezas antigas. À noite, o arraial transforma o adro num espaço de convívio onde três gerações se cruzam: os 158 idosos que guardam a memória das festas de outros tempos, os 56 jovens que correm entre as bancas, e todos os que ficam no meio. A música tradicional ecoa até tarde, e o cheiro a chouriça assada no pão mistura-se com o fumo das fogueiras.
Quando a última luz do dia roça as vinhas e o granito das fontes ganha tons de cobre, Fontelas revela-se no murmúrio constante da água que nunca pára. É esse som — discreto, persistente, anterior a tudo — que fica na memória de quem passa: a promessa de que há lugares onde a terra continua a dar de beber.