Artigo completo sobre Galafura e Covelinhas: onde o Douro se vê de 640 metros
Capela de São Leonardo domina a paisagem vinhateira desde o Monte mais alto do Alto Douro
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O granito do murete aquece ao sol da tarde, enquanto o Douro corre seiscentos metros abaixo, uma faixa de prata entre os socalcos que descem em degraus perfeitos até à margem. No topo do Monte de São Leonardo, a 640 metros de altitude, o vento traz o cheiro a terra seca e a folha de videira. O silêncio só é interrompido pelo sino distante da capela, que marca as horas para quem ainda as conta.
A União das freguesias de Galafura e Covelinhas nasceu oficialmente em 2013, mas a sua história mergulha raízes em séculos anteriores. Covelinhas recebeu foral de D. Sancho I em janeiro de 1195, tornando-se terra reguenga com peso económico na Idade Média. Galafura, por sua vez, integrava as Terras de Panoias em 1341, sob a alçada de Vila Real. A etimologia dos nomes revela a ligação ao território: Galafura deriva do latim Galafrum, significando "povo do rio", enquanto Covelinhas provém de "cova" ou "Covelas", topónimo antigo que evoca a geografia de vales encaixados. Antes ainda, os romanos exploraram ouro nestes montes, deixando vestígios arqueológicos no Monte de São Leonardo e no Castro de São Xisto.
A capela no topo do mundo
A Capela de São Leonardo ergue-se no ponto mais alto da freguesia, oferecendo uma das vistas mais impressionantes do Alto Douro Vinhateiro. Miguel Torga, que conhecia bem este território, chamou-lhe "um excesso de natureza" — e a descrição não falha. Daqui, o Douro desenha curvas entre as encostas forradas de vinha, oliveira e amendoeira, uma paisagem mediterrânica talhada em xisto e granito. A romaria anual, no penúltimo fim de semana de agosto, transforma o monte num ponto de encontro onde a devoção e o convívio se misturam ao som de música tradicional e ao cheiro a chouriço assado.
A freguesia conta com sete bens classificados — um de interesse municipal e seis de interesse público — entre capelas, pontes e construções tradicionais que documentam a arquitectura rural e vinícola da região. A pedra é o denominador comum: muros de xisto que retêm os socalcos, casas de granito com portais de verga recta, cruzeiros que marcam encruzilhadas e caminhos antigos. Entre eles, passa a Via Lusitana do Caminho de Santiago, trilho interior que liga peregrinos ao norte peninsular.
Vinho, presunto e pão de milho
Na mesa, a identidade duriense revela-se sem rodeios. O cabrito assado, temperado com alho e colorau, acompanha-se de batatas murras e vinho tinto do Douro, produzido nas quintas que rodeiam as aldeias. A feijoada transmontana, densa e aromática, aquece os dias mais frios, enquanto o pão de milho, de côdea estaladiça, serve de base para os enchidos regionais. Nos doces, o pão de ló e as queijadas completam refeições que respeitam o ritmo das estações e das colheitas. O que não falta cá em cima é o vinho produzido nas poucas dezenas de parcelas que ainda se cultivam - moscatel para os doces e tintos de altitude que os agricultores vendem directamente aos restaurantes da Régua.
Socalcos, trilhos e silêncio
A paisagem organiza-se em patamares que acompanham a inclinação do terreno, sistema milenar inscrito no Património Mundial da UNESCO desde 2001. As vinhas mudam de cor conforme a estação: verde-claro na primavera, verde-escuro no verão, dourado e vermelho no outono. Entre Covelinhas e o Monte de São Leonardo, trilhos pedestres percorrem caminhos antigos, cruzando olivais e pontos de água onde ainda se ouve o canto das aves de rapina. A altitude varia entre os 200 e os 640 metros, criando microclimas que favorecem a biodiversidade mediterrânica — javalis, raposas e uma vegetação adaptada ao sol forte e aos invernos húmidos.
Com 705 habitantes distribuídos por 1585 hectares, a densidade populacional deixa espaço ao silêncio e à contemplação. A festa em honra de Nossa Senhora do Socorro, a 15 de agosto em Covelinhas, e a romaria a São Leonardo no último fim de semana do mês, pontuam o calendário anual. Fora desses dias, o quotidiano desenrola-se ao ritmo das vindimas em Setembro, das podas em Janeiro, do cuidado das vinhas que alimentam a região demarcada mais antiga do mundo, criada pelo Marquês de Pombal em 1756.
Ao final da tarde, quando a luz rasante incendeia os socalcos, o Douro parece um espelho de cobre líquido. No topo do monte, a capela de São Leonardo recorta-se contra o céu, testemunha silenciosa de romarias, colheitas e estações que passam sem pressa.