Artigo completo sobre Loureiro: vinhas em socalco e pedra antiga no Douro
Igreja matriz de 1793, amendoais em flor e vinhedos em patamares junto à Ribeira Teja
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O cheiro a lenha queimada não engana: é dia de pão. Às terças e sextas, António acende o forno com serrim de carvalho antes das cinco da manhã. Às oito, o ar já pesa com o perfume das amendoeiras em flor e o pão cai quente nas mãos de quem espera com o chápeu na cabeça. Socalcos acima, a encosta parece um livro aberto: cada muro de xisto é uma frase, cada vinha uma vírgula. Loureiro fica a 357 metros, mas sobe-se mais alto quando se carrega uma cesta de uvas no verão.
Pedra, talha e devoção
A Igreja Matriz não tem campainha. Bate-se com a mesma palmada que o avô ensinou: duas vezes, pausa, uma terceira. Dentro, o banco da frente rangerá sempre no mesmo sítio – terceiro lugar à esquerda, onde a madeira apodreceu de tanto ser o último a sair. No altar-mor, a talha dourada perdeu um anjo: partiu-se numa queda durante a missa do galo de 1983. Ninguém o reparou; dizem que ainda lá está, entre o sacrário e a parede, a guardar a memória do que foi. A Capela de Santo António, ao lado, fecha às quartas para a dona Amélia varrer. Ela guarda a chave no avental e abre a quem bater com jeito.
Vinhas que sobem, amêndoas que descem
As vinhas começam onde acaba o quintal. Subem tão rentes às casas que, em Agosto, os cachos tocam nas janelas das crianças. A flor da amêndoa dura o tempo de um café: aparece de noite, em Fevereiro, e já caiu quando o pão de ló sai do forno. A Ribeira Teja leva água só depois da chuva; no verão é um fio de pedras polidas onde os miúdos apanham lagartixas. No Cabeço dos Mouros, o miradouro é um banco de xisto com vista para o lugar de onde se saiu. Senta-se lá quem quer fazer as contas ao que ficou para trás.
Fumeiro, amêndoa e memória
Na casa da dona Elvira, o fumeiro está pendurado tão baixo que se esbarrar com a cabeça leva com um chouriço no olho. Ela salga em Dezembro, abre em Maio, e entre um mês e outro vai lá de tempos a tempos para “dar uma voltinha ao fumo” – empurrar o fumo com uma vara de medronheiro, como aprendeu com a mãe. Os figos secos não se cortam com faca: partem-se com as unhas e comem-se com queijo de ovelha quando o vinho é tinto. O azeite é de seis oliveiras que sobreviveram à geadas de 1991; dá para um ano, talvez dois, se a filha não levar para Lisboa.
O caminho que atravessa
O Caminho de Santiago entra por cima, junto ao cruzeiro partido, e sai por baixo, na ponte das Poldras. Quem vem de fors pergunta sempre se é aqui que se come bem. Aponta-se para a esplanada do Zé – é só uma mesa de plástico e uma máquina de café, mas o caldo verde é servido com a colher de pau que o Zé fez ao domingo. As Poldras são três lajes de xisto que escorregam quando a água sobe. Atravessam-se depressa, a olhar para o lado, porque quem tropeça leva os pés molhados e a vergonha de quem nisso nasceu.
Festa e permanência
A Festa da Senhora do Socorro é no domingo mais perto de 15 de Agosto. Antes da missa, os homens arrastam bancos para a rua e as mulheres põem toalhas de linho nas mesas de madeira. Às onze, a banda toca o mesmo marchão de sempre; os mesmo acordes, as mesmas notas falsas. A procissão desce até à ponte e sobe outra vez, parando em frente à casa do Joaquim para ele ver a imagem da janela – está há três anos sem sair, mas ninguém lhe diz que já não pode. À noite, os jovens que vieram de fors bebem imperiais no café e falam alto, como se a aldeia fosse grande. Depois regressam às cidades, deixando os pais a guardar as cadeiras dentro de casa, para a chuva não estragar.
Quando o sol se põe, o rio fica de laranja e as vinhas parecem de fogo. O silêncio é tão grosso que se ouve a voz do vizinho a contar o dia, do outro lado da parede. Loureiro não pede visitas – pede que se fique o tempo de um pão, de uma história, de um copo de vinho que não se bebe sozinho.