Artigo completo sobre Canedo: aldeia de granito e corgas a 600 metros
Freguesia milenar em Ribeira de Pena onde o tempo corre ao ritmo das colheitas e do fumo das lareira
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O silêncio aqui tem peso. Aos 600 metros, o nevoeiro agarra-se às pedras até às dez da manhã. Cheira a terra molhada e à lenha queimada nas lareiras de ferro. Nas corgas, a água corre baixa — desvia-se das pedras e desaparece nos medronhais. Canedo marca o tempo pelas sementeiras e pela vindima. Quem cá nasceu aprendeu a ouvir o tempo antes de o ver.
Raízes fincadas desde 1317
Primeiro documento é de 1317. Nome vem das canas que ainda crescem nas bermas. Séculos a século, sobreviveu-se ao centeio e à cortiça. Hoje, 275 habitantes: 133 têm mais de 65 anos, 13 são crianças. Continua-se a lavrar em socalcos de mão, a meter alho na sementeira e a colher azeitona antes do Natal. Quem ficou não quer monumentos — quer terra que dê para comer.
Festas que ainda juntam a aldeia
15 de agosto: Nossa Senhora da Guia. Missa às 11h, procissão até ao cruzeiro, jantar comunitário no adro. Quem vem de fora traz a cadeira de casa. Serve-se cabrito assado no forno de lenha; leva-se garrafa de vinho branco de casa. Não há bilhete: há mesa comum e quem chega último come em pé.
O que se come
Carne Maronesa — é o que está no menu do único café-abastecedor. Pede-se no dia anterior; vem do mato, tempera-se só com sal e alho. Presunto de Vinhais corta-se à faca, grosso; leva-se para casa embrulhado em papel de alumínio se sobrar. Mel compra-se à Sr.ª Emília: bate à porta da casa com a placa “Mel”, deixa 6 € na caixinha de sapato. Pão de milho faz-se de dois em dois dias no forno da aldeia; acaba às 10h.
Caminhar
Não há placas nem mapas. Segue a estrada de terra para Cerva, desce à direita depois do cão branco. Atravessa-se eucaliptal, sobe-se muro de pedra solta, chega-se ao olival abandonado. São 4 km ida e volta; leva 1 L de água, o telemóvel não apanha rede. No cimo vê-se o Tâmega lá em baixo e a aldeia aos cubos de granito. Melhor hora: duas horas antes do pôr do sol, quando o nevoeiro já subiu do vale.
Canedo não vende nada. Dá é pedra para sentar, som de corga e noite sem luz. Leva casaquinho, mesmo em julho.