Artigo completo sobre Santa Marinha: gravuras rupestres e vales de granito
Arte pré-histórica e pontes romanas nas encostas do rio Poio, entre soutos e vinhas em socalcos
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O som da água do rio Poio chega antes da vista — um murmúrio constante que sobe do vale e se espalha pelas encostas graníticas. Santa Marinha desenha-se em 34,7 quilómetros quadrados de ondulações verdes, entre os 300 e os 800 metros de altitude, onde os soutos se agarram às vertentes e as vinhas descem em socalcos até à linha de água. Nos dias claros, o granito dos muros brilha ao sol da tarde, enquanto o fumo de alguma lareira sobe lento entre os telhados de xisto. São apenas 551 habitantes — menos gente que numa fila para o bilhete do Porto à sexta-feira — mas a falta de vizinhos não significa vazio. Significa é que se pode esticar os braços sem bater ninguém.
Gravuras que atravessam milénios
A freguesia guarda um segredo que poucos conhecem: a Estação de Arte Rupestre de Lamelas, com mais de 100 painéis de gravuras pré-históricas. Círculos concêntricos, covinhas e figuras geométricas marcaram a rocha há milhares de anos, como quem rabisca um número na porta de um café. O Trilho da Arte Rupestre, com quatro quilómetros, liga Lamelas à ponte romana sobre o Poio — um arco único de 14 metros que resistiu a quase 2 000 anos de cheias e tráfego. Dizem que foi construída por romanos; eu cá acho que foi por alguém que percebia tanto de engenharia como eu de croché — mas lá está, ainda aguenta.
No centro da freguesia, a Igreja Matriz de Santa Marinha ergue-se com a sobriedade barroca do século XVIII. Lá dentro, o retábulo dourado brilha na penumbra e os azulejos setecentistas contam histórias de santos e milagres. Do adro, a vista abre-se sobre o vale do Poio, onde os campos de milho alternam com vinhas e bosques de carvalhos. As capelas de Nossa Senhora da Guia e do Divino Salvador marcam o território como pontos de orientação espiritual — e também como bons pontos de referência quando se perde a estrada das aldeias.
Festa, fogueira e concertina
O calendário festivo de Santa Marinha vive ao ritmo das romarias. No último domingo de agosto, a procissão de Nossa Senhora da Guia percorre as ruas com andores enfeitados, seguida de arraial que se estende pela noite. Em setembro, as Festas do Divino Salvador e da Senhora das Angústias juntam fé e música — e também oportunidade para comer sandes de vitela a três euros até deixar o pires branco. A 29 de junho, São Pedro de Cerva acende fogueiras e traz concertinas. É como o São João do Porto, mas em vez de martelos há gaitas e em vez de multidão há espaço para dançar sem levar com o cotovelo do vizinho.
Em julho, a Feira do Linho revive o ofício de fiar e tecer. A minha avó dizia que "linho é como bom vinho — quanto mais se usa, melhor fica". Há demonstrações ao vivo, exposições de peças antigas e venda de produtos artesanais. Comprei uma toalha há três anos que ainda hoje não solta fiolho — recomendo.
À mesa com o Tâmega
A vitela maronesa DOP chega à brasa ou estufada, com a carne tenra que só a raça autóctone consegue. O cabrito assa em forno de lenha até a pele estalar — o som é como o primeiro corte numa broa fresca, mas melhor. Os enchidos fumados pendem nos fumeiros das casas, perfumando o ar com lenha de carvalho. Os Milhos Esfuçados, prato de milho miúdo com couves e feijão, são o que a minha mãe fazia quando o orçamento estava curto mas a família era grande. "Sfuçar" é o que se faz quando se está a ver televisão e o prato está quente — sopra-se até arder a língua ou até arrefecer, o que vier primeiro.
Do rio Poio vêm trutas fritas ou grelhadas, frescas como o pão que sai do forno às sete da manhã. Para adoçar, o Mel das Terras Altas do Minho DOP escorre dourado sobre a broa escura — e se cair para o prato, não se limpa. Deixa-se ficar, que a broa depois agradece. Tudo acompanhado de vinho verde da sub-região de Basto. Não é dos famosos, mas é como o primo que não sai nas fotografias da família — sempre presente e nunca desilude.
Vindima e céu estrelado
Setembro traz a vindima às vinhas da Quinta do Paço, onde ainda se pisa uva em lagar tradicional. Quem participa prova o mosto directamente da pipa — doce, turvo e com aquele gosto a uva que os miúdos roubavam das parreiras. A praia fluvial de Cerva tem águas limpas e zona de merenda sombreada. É como a praia do Porto, mas sem guarda-sóis a cinco euros e sem música aos berros. À noite, no Lugar do Poio, longe de qualquer poluição luminosa, o céu abre-se em constelações nítidas. A Via Láctea desenha-se como um rasto de pó branco — ou como o caminho de terra que a minha avó varria todas as manhãs, mas em versão cósmica.
Quando o sino da igreja bate as seis da tarde, o eco percorre o vale devagar, ricocheteando nas encostas até se perder no murmúrio do rio. É nesse instante — entre o último toque e o silêncio que se segue — que Santa Marinha se revela inteira. Como quando o café fecha e ainda se fica cinco minutos à porta, aproveitando os últimos goles antes de ir para casa.