Artigo completo sobre Gouvinhas: espigueiros de granito e vinhas do Tedo
Mais de 50 espigueiros, ponte medieval e vinhas centenárias na freguesia de Sabrosa, Vila Real
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O granito dos espigueiros queima devagar — não é o calor da tarde, é a memória de quem aí passa descalço. Cinquenta e tal canastros de pedra, cada um com a sua sombra, cada um com o nome da família picado à lazada. O meu avô dizia que o milho dormia melhor no ar do que na cama dele. Quando o vento sobe do Tedo traz o cheiro da ribeira: folha de videira pisada, xisto moído, às vezes o tostado das castanhas que caem do outro lado do vale. Gouveio já não há, só o nome ficou preso à boca dos mais velhos.
A Igreja de São Martinho não é grande, mas o ouro do retábulo engana: às quatro da tarde incendeia-se todo, depois apaga-se como lareira sem lenha. A Capela da Azinheira fica a subir, quem vai leva um nó no pulmão. Dizem que encontraram a Nossa Senhora enfiada numa azinheira que ainda hoje dá bolotas amargas — provei, é verdade.
O rio, a pedra, o vinho
O Tedo não é largo, mas é fundo. A ponte tem uma pedra escorregadia no meio — já me vi ali deitado, a ver passar as nuvens. As acequias ainda se seguem, agora só trazem ervas e rãs. Ninguém rega há cinquenta anos, mas o canal da direita continua vivo: é ali que as crianças aprendem a nadar, agarradas ao junco.
A Vinha da Raposa não é centenária, é mais velha que isso. As cepas parecem braços a pedir esmola — dão uvas poucas, mas que sabem a xisto e a agoa. O vinho que sai dali serve-se em copos pequenos, fica a ranger nos dentes. Touriga nacional é para os livros; cá chama-se "tinta de morto", porque deita o homem ao chão antes de lhe tocar na alma.
Quando o povo sobe ao monte
A romaria da Azinheira é no domingo a seguir ao 8 de setembro. Começa com um cigarro aceso à porta do café e acaba com o sanfona a desafinar. Quem sobe de muletas sobe mesmo, não se deixa ficar. Em maio leva-se pão e água-pé; em agosto ferve-se sangue de porco com cebola e bebe-se aguardente que arde mais que a fogueira. O São Martinho é o dia em que as castanhas estalam na tampa do bidão e o vinho novo ainda faz espuma — se não fizer, não é do ano.
Nas tasquinhas abre-se a porta e entra-se para dentro do fumo. O cabrito vai rodando, a gordura cai na brasa e sobe em risota. A chanfana leva três dias: um para matar o bode, outro para o deitar no vinho, outro para esquecer o que se fez. A alheira está pregada no cabo da enxada, vai ganhando cara de madeira. O pão de milho é pesado como culpa — partido ao meio, fumega mais que a lenha.
O trilho dos espigueiros começa onde o asfalto acaba. São cinco quilómetros de pedalada em cima de pedra solta; quem levar sandálias leva bolhas a sério. Do alto vê-se o Tedo a fazer a curva do pescoço de ganso, os telhados de telha que nem escamas de peixe, a torre da igreja a apontar para onde já ninguém vai. Às vezes um grifo paira, mas é raro — o mais certo é serem abutres a farejar o que restou da matança. O granito dos espigueiros ainda está quente quando o sol se esconde atrás do Marão. É o único lugar onde o dia demora mais um bocado, agarrado à pedra que o guardou.