Artigo completo sobre Paços: Três Romarias Entre Vinhas e Xisto de Sabrosa
A 674 metros de altitude, a freguesia celebra fé e tradição vinhateira no coração de Trás-os-Montes
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O sino da igreja repica ao fim da tarde e o som espalha-se pelos socalcos como quem avisa que é hora de ir jantar. Em Paços, a 674 metros de altitude, o ar traz o cheiro da terra acabada de lavrar - aquele aroma que só quem cá nasce sabe que é de boa, terra que não mente. A luz rasante do entardecer pinta os cachos de uva que ainda agora estavam verdes, e o silêncio que se segue ao badalar é denso, só partido pelo murmúrio de uma conversa entre vizinhos à porta da adega do Zé.
A freguesia vive entre dois mundos: o planalto transmontano, com os seus ventos que "lá em cima nem as galinhas voam", e o vale do Douro, onde a vinha desenha curvas que fazem parecer que a montanha está a dançar. Esta posição de transição moldou Paços ao longo dos séculos - o nome pode vir de "Paço", indicando que por aqui andou gente importante que deixou marcas na paisagem. Com 676 habitantes distribuídos por mais de 1700 hectares, a freguesia respira um ritmo que se mede pelo ciclo da vinha e pelas estações. É como diz o meu tio Alberto: "Aqui o relógio são as videiras."
Fé que se celebra três vezes
O calendário de Paços tem três marcas a vermelho: Nossa Senhora da Azinheira, Nossa Senhora da Saúde e o Senhor Jesus de Santa Marinha. Estas romarias não são só para cumprir promessas - são o Facebook do pessoal, onde se encontram os primos que só se veem por estas alturas. O cheiro da cera das velas mistura-se com o fumo dos fogareiros onde se assam chouriças, e o adro enche-se de vozes, risos e promessas cumpridas. As procissões descem os caminhos entre as vinhas, e há sempre aquele vizinho que insiste em levar a bandeira ao lado errado.
Presunto, vinha e mesa transmontana
Vem à mesa o Presunto de Vinhais IGP - o tal que o meu pai guarda para "quando vem gente de fora". Cortado em fatias finas como papel de seda, desfaz-se na boca como quem se desculpa por ter demorado. À mesa, o cozido à portuguesa que a minha mãe faz é daqueles que se come de olhos fechados, a feijoada transmontana que sustenta um homem para o dia inteiro, e o cabrito que o Sr. Joaquim assa no forno a lenha desde que se lembra. A vinha não é só paisagem: é o que paga as propinas dos filhos, é o sustento que mantém as portas abertas. Paços está no Alto Douro Vinhateiro, património mundial, onde os socalcos foram feitos à custa de lombadas e suor.
Entre o xisto e o horizonte
A altitude e a topografia dão a Paços uma luz que os fotógrafos de Lisboa pagariam para apanhar. Nas manhãs de Inverno, o nevoeiro sobe do vale e apaga o mundo como quem apaga uma luz. No Verão, o calor acumula-se nas pedras dos muros e o cheiro a terra seca mistura-se com o perfume das videiras. A freguesia tem apenas 83 jovens e 204 idosos - números que dizem que os filhos foram para o Porto e para França, mas também dizem que ainda há quem escolha ficar, cultivando a terra e mantendo viva a memória do lugar. Como diz a minha avó: "Aqui se nasceu, aqui se morre, e no meio disso tudo há que fazer a vida."
Quando a noite cai sobre Paços, o céu abre-se em estrelas que se multiplicam como gente que chega a uma festa. O frio corta, mesmo em Agosto, e o silêncio é tão espesso que se ouve o gato a ronronar na casa do lado. Fica na memória o som do vinho a ser despejado numa caneca de barro, o trincar do pão acabado de tirar do forno da padaria que ainda abre às 7 da manhã, o toque final do sino - três batidas lentas que marcam o fecho do dia e o início da conversa na esplanha do café, onde se fala da colheita, da política e da bola, como se o mundo não fosse mais do que aquilo que se vê da colina.