Artigo completo sobre São Lourenço de Ribapinhão: vinhas e mamoas no Douro
Freguesia de Sabrosa entre o Pinhão e a serra, com túmulo neolítico e solares medievais a 647 metros
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A luz da manhã escorre pelas encostas e apanha os socalcos do Pinhão ainda molhados de orvalho. Lá em baixo, o rio desenha curvas apertadas entre vinhas que sobem até onde a vista alcança, e o xisto reflete tons de ocre e cinza que mudam conforme o sol sobe. A 647 metros de altitude, São Lourenço de Ribapinhão vive suspensa entre o vale e a serra, terra de vinhedos e silêncios antigos onde cada pedra guarda memória dos que aqui ficaram.
Raízes fincadas no xisto
As Inquirições de 1220 já mencionavam esta freguesia, então ligada à Terra de Panóias e aos senhorios dos Sousões desde o século IX. O nome junta o santo padroeiro ao rio que corre lá em baixo — Ribapinhão, riba de Pinhão —, marca geográfica que define tudo. Durante séculos pertenceu a Vilar de Maçada e depois a Alijó, só transitando para Sabrosa em 1855. Fernão Sanches, filho bastardo de D. Dinis, deixou aqui a sua marca senhorial, e os solares brasonados que ainda pontuam a paisagem testemunham essa importância medieval. A Igreja Matriz de São Lourenço ergue-se no centro, pedra lavrada pelo tempo, enquanto o Santuário de Nossa Senhora da Saúde atrai romeiros que sobem o caminho entre olivais.
Túmulo neolítico no planalto
No lugar de Arcã, a mamoa de Madorras I — um dos maiores túmulos neolíticos do Norte — foi escavada por Vítor Oliveira Jorge em 1980-81 e classificada como Imóvel de Interesse Público em 1973. O monumento funerário de 25 metros de diâmetro levanta-se no meio do campo, testemunho de cinco mil anos de ocupação humana. Ali, o vento varre o mato baixo e o silêncio só é cortado pelo ladrar distante de um cão. Caminhar até à mamoa é atravessar camadas de história: da Pré-História aos solares medievais, do domínio senhorial às vinhas que hoje desenham o Alto Douro Vinhateiro, património mundial da UNESCO desde 2001.
Presunto, vinhos e cozido transmontano
À mesa, a identidade transmontana revela-se sem rodeios: presunto de Vinhais IGP cortado à faca, chouriço curado no fumeiro, alheira com grão, cabrito assado que se desfaz no garfo. O cozido transmontano ferve devagar em panelas de barro, misturando carnes, enchidos e hortaliças. As sobremesas de abóbora e os bolos de noz fecham refeições regadas a vinhos DOC Douro, tintos encorpados que nascem destas encostas íngremes. Nas quintas próximas, é possível provar directamente aos produtores, sentindo o peso do copo e o travo a xisto que marca cada gole.
Romarias que acordam o verão
As romarias de Nossa Senhora da Azinheira (primeira domingo de maio), Nossa Senhora da Saúde (último domingo de agosto) e do Senhor Jesus de Santa Marinha (segundo domingo de julho) pontuam o calendário anual, trazendo procissões cantadas, feiras e arraiais que enchem os largos. A festa de São Lourenço, em 10 de agosto, junta vizinhos e emigrantes regressados, mesas compridas ao ar livre, música tradicional até tarde. Nestas ocasiões, a freguesia de 318 habitantes — onde os idosos superam os jovens por quase cinco para um — ganha outra densidade, outro pulso.
Os trilhos entre vinhedos ligam Arcã ao santuário, passam por Paredes, Vale das Gatas e Vilar de Celas, aldeias de casas de granito e portões de madeira gretada. Ao fim da tarde, quando o sol bate de lado nas vinhas, o vale do Pinhão acende-se em tons de cobre e bronze. Fica o cheiro a terra aquecida, o murmúrio da água lá em baixo, o eco de um sino que marca as horas sem pressa.