Artigo completo sobre Torre do Pinhão: vinhas em altitude no Douro
Freguesia de Sabrosa com 296 habitantes, três romarias antigas e socalcos a 600 metros de altitude
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O vento corre entre as vinhas em socalcos e traz consigo o cheiro a terra seca, a granito aquecido pelo sol da tarde. Torre do Pinhão estende-se a mais de seiscentos metros de altitude, numa paisagem onde o verde das videiras alterna com o castanho da terra nua e o cinza das pedras que delimitam os patamares. O silêncio aqui é denso, interrompido apenas pelo sino distante da igreja ou pelo ladrar de um cão nas quintas dispersas. Duzentos e noventa e seis habitantes repartem-se por quase mil e quinhentos hectares, numa densidade que se mede mais pela ausência do que pela presença.
Três romarias, três tempos
O calendário desta freguesia marca-se por três momentos de devoção que concentram a comunidade. A Romaria de Nossa Senhora da Azinheira, no primeiro domingo de maio, reúne gente na capela que fica a meio da encosta, entre o lugar de Cidadelha e a Rua de Cima. A de Nossa Senhora da Saúde, em agosto, anima o adro da ermida que serve o casario de Vilarinho. Já o Senhor Jesus de Santa Marinha, celebrado a 6 de agosto, atrai devotos até à capela junto ao cruceiro de Santa Marinha, onde a procissão desce a estrada municipal 514 com o andor sobre os ombros de oito homens. Nesses dias, o adro enche-se de gente que vem de Vilarinho, de Cidadelha e até de Celeirós, os foguetes ecoam pelos vales e o cheiro a chouriça assada na banca da Dona Emília mistura-se com o incenso. São os momentos em que Torre do Pinhão respira ao ritmo de outrora, quando a população ainda não tinha envelhecido ao ponto de contar cento e oito pessoas acima dos sessenta e cinco anos para apenas vinte e nove jovens.
Vinhas Património
Torre do Pinhão integra a área classificada pela UNESCO como Alto Douro Vinhateiro desde 2001, essa paisagem cultural evolutiva onde o trabalho humano moldou a montanha em anfiteatro virado para o rio. Aqui, os socalcos sobem até onde a vista alcança, sustentados por muros de xisto que retêm a terra e guardam o calor necessário à maturação das uvas. As castas brancas, como a Viosinho e a Rabigato, e as tintas, como a Touriga Nacional e a Tinta Roriz, desta sub-região de Trás-os-Montes e Alto Douro, produzem vinhos que carregam a mineralidade do solo xistoso e a intensidade do sol de altitude. No Outono, as folhas das videiras tingem-se de vermelho e amarelo, e o ar traz um travo adocicado a mosto que vem das lagares de Vilarinho onde ainda se pisa a pé.
Sabores de montanha
A gastronomia aqui não se inventa — herda-se. O Presunto de Vinhais ou Presunto Bísaro de Vinhais, protegido por Indicação Geográfica Protegida desde 2008, é o produto que melhor traduz a arte da cura em altitude. As pernas de porco bísaro são salgadas em Janeiro, lavadas com água e vinho branco em Março, e depois penduradas nos fumeiros das casas de lajes onde o fumo de lenha de carvalho ou castanho as envolve durante dezoito meses. O resultado é uma carne de cor rubi escura, marmoreada de gordura, com um sabor intenso a fumo e a tempo. Nas mesas das casas, o presunto acompanha o pão de centeio do forno comunitário de Vilarinho, o queijo curado da Quinta do Reboredo e o vinho tinto da vinha do Seixal.
O peso do silêncio
Caminhar por Torre do Pinhão é medir a distância entre as casas pelo eco dos próprios passos na estrada municipal 514 que liga Vilarinho a Celeirós. As aldeias dispersam-se, cada uma com o seu núcleo de pedra e cal — Cidadelha com as suas ruas estreitas e o cruzeiro do século XVIII, Vilarinho com a eira comunitária onde já não se malha o centeio desde que o moinho de água fechou em 1983, e o Seixal com as suas casas de lajes onde o José do Carmo ainda faz aguardente à moda antiga. O vento traz o cheiro a lenha queimada das lareiras, mesmo em pleno dia. Ao longe, o perfil da serra do Marão recorta-se contra o céu, e o sol rasante da tarde acende os muros de xisto como se fossem brasas. Aqui, o que fica na memória não é um monumento ou uma praça — é a textura rugosa de uma pedra quente ao toque no muro da vinha do Sr. António e o som do sino da igreja matriz de Vilarinho que demora a desvanecer-se no ar rarefeito da altitude.