Artigo completo sobre Sanhoane: vinhas de xisto e festas de São Pedro
Freguesia vinhateira no Douro com socalcos de xisto, aguardente artesanal e tradição secular
Ocultar artigo Ler artigo completo
O xisto escuro dos socalcos aquece de tal maneira que, às três da tarde, até as lagartixas procuram a sombra das pedras. Entre as vinhas alinhadas em terraços, o silêncio só é quebrado pelo raspar distante de uma enxada ou pelo zumbido de uma vespa que parece pedir um gole de vinho. Sanhoane aguenta-se aos 309 metros de altitude como quem se aguenta a um balcão de café: já lá vão oito séculos, mas a postura é a mesma — compacta, discreta, com a rua principal a fazer curva à volta da igreja como se fosse um braço de anfitrião a convidar para entrar.
O nome e a memória documental
O Foral de D. Manuel, de 1519, já falava em "Sanhoane de Medim". O nome pode ser de São João — nunca se fez festa grande a ele — ou de um tal João que por aqui plantou vinha antes de os reis terem números nos documentos. A dúvida fica-se pelos papéis: na aldeia, o que importa é que, depois de andar colada a Lobrigos durante uns anos, Sanhoane vai voltar a ser ela própria em 2025. É como quem recupera o nome de solteira: demora, mas há quem festeje só de pensar nisso.
Vinhas em socalco, vinhos com selo
Está tudo dentro da Região Demarcada do Douro — o que quer dizer que até um pé de vinha mudar de sítio precisa de autorização de Vila Real. Os tintos têm aquela acidez que faz piscar o olho quando se bebe o primeiro copo; os brancos, se forem servidos numa garrafa que esteve na cave da Dona Albertina, descem que é um murro. A bagaceira, destilada em caldeiros de cobre, aquece mais do que qualquer lareira. E o presunto de Vinhais — servido em fatias tão finas que se vê o prato por baixo — é cortado na diagonal, como manda a regra, para o fumo do carvalho saber bem em cada dentada.
A festa que marca o calendário
Dia 29 de junho, São Pedro. A missa é às onze, mas a fila para os anéis começa às dez. Depois da procissão — que sobe a rua da Igreja e desce pelo beco do Fumo —, instala-se o arraial na praça. Há sardinhas que foram ontem ao mar de Vila Real, pão de alheira feito na padaria do Zé, e vinho tinto que o António traz em garrafões de cinco litros. É o dia em que a aldeia duplica de tamanho: os emigrantes chegam de França de carro matriculado em Lyon, os filhos que estão no Porto trazem os netos que só falam português com sotaque. À noite, o rancho canta "São Pedro vai na procissão" e há quem chore sem saber bem porquê.
Percorrer o vale, provar o Douro
Não há placas nem setas amarelas: para ver Sanhoane, é precermo-nos deixar levar. Comece pela estradinha de terra que parte da EN322, suba até ao cruzeiro onde se lê “1897” — ali o vale abre-se como um mapa desdobrado. Se encontrar o Sr. Domingos a podar, pergunte-lhe se ainda há uvas de mesa no celeiro; ele diz que não, mas acaba por mandar vir um cacho do fundo da casa. Não há centro de interpretação, mas há a Adega Cooperativa de Santa Marta a cinco minutos: entre, prove, e leve uma garrafa do reserva — não vai encontrar esta etiqueta no Intermarché.
831 habitantes, 359 hectares, uma identidade
Sanhoane é pequena, mas não é aldeia-fantasma. Tem 84 crianças na escola básica (sim, ainda aberta), tem o café do Quim onde se servem imperial a cinquenta cêntimos, tem o futebol de 7 que no domingo joga no campo a meio da encosta — quem marca golo ouve o eco na serra do Marão. A vinha continua a ser cavada a mula, o fumeiro acende-se em novembro, e quando o sol se põe atrás dos socalcos ainda se ouvem vozes nas varandas. São 831 habitantes, mas parecem mais: porque aqui ninguém fecha a porta à chave, e o cão do vizinho dorme na nossa entrada como se sempre tivesse lá estado.