Artigo completo sobre Canaveses: 170 almas entre xisto e fumeiro transmontano
Aldeia de pedra a 444 metros onde o tempo corre ao ritmo das estações e das mãos que ainda lavram
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A estrada sobe, vira, desce, e quando pensas que já não vai a lado nenhum lá está: Canaveses, agarrado à encosta como quem se agarra ao balcão para ver a procissão. Dezassete casas, duas ainda fumegam, uma tem a porta aberta e dá para ouvir o “Sim, senhor!” do Zé Manel ao telefone. Cento e setenta pessoas, mas na verdade são quatro crianças, noventa e tantos velhos e o resto que vai às terças e sextas ao Intermarché de Valpaços fazer a vida.
Terra de poucos, memória de muitos
Não há esplanada, nem café, nem banca do jornal. Há a Capela de Santo António, a fonte onde a malta enche garrafões aos domingos e o Celeiro da freguesia que às vezes serve para o jantar de aniversário da D. Aurora — a que fez 90 e ainda descasca tangerinas mais depressa que eu. As casas vazias são tantas que o João Baptista — o da moto azul — arranja chaves de sete e mete-as à venda no OLX: “dá para fazer casa de fim-de-semana ou depósito de ferramentas”. Mas nos quintais há pés de cabrito, há romeiras, há nêsperas que sabem à infância de toda a gente.
O fumeiro como biblioteca viva
Não penses em menu. Aqui comem-se cosidas à segunda, sobras à terça, feijoada à quarta se o porco foi abatido no fim-de-semana. O fumeiro está dependurado na cave da Maria Alice; ela abre a porta e o cheiro bate-te na cara como quem diz “entra, mas não fiques”. O presunto é bísaro, é de porco celta, é do que andou a beliscar bolotas no monte de tras da aldeia. O mel vem do Celeiró, o do meio da serra, e se lhe perguntares qual é o seguro ele responde “olha, é não deixar as abelhas saberem que lhes vais roubar”. Não há restaurante, mas se chegares à hora certa há sempre lugar para mais um à mesa — leva só o apetite e não fales em gluten.
Paisagem sem adjectivos
Sai da estrada, sobe o carreiro ao lado da fonte da Pipa e segue até ao muro onde o Xico deixou a enxada enferrujar. Lá acima vês quase tudo: o centeio ondulando como quem está a ver se apanha onda, o carvalhal que ainda guarda as primeiras fontes, a aldeia lá em baixo que parece um botão de abóbora esquecido no prato. Não há placas, nem selfies, nem yoga ao fim-do-dia. Há é vento que leva a fala antes de a gente acabar a frase e, no Inverno, um frio que faz o cigarro durar o dobro.
O peso do vazio
Quando o sol se põe por trás do Santo António as pedres das casas ficam cor de mel e até o cão do Loura para de ladrar, como se ficasse a ver televisão de graça. É nessa hora que percebes: Canaveses não é sítio para passar férias, é sítio para quem já não quer ir a lado nenhum. A porta range, o gato atravessa, a D. Aurora acende a luz da cozinha e a sombra dela projecta-se na parede como um filme mudo que já deu duzentas vezes. E está tudo bem assim: o mundo lá vai correndo, e aqui fica a pedra, o fumeiro, a memória — e o João Baptista que ainda não encontrou comprador para a terceira casa, mas já tem as chaves feitas, só no caso.