Artigo completo sobre Friões: onde o xisto guarda 720 metros de altitude
Aldeia transmontana de Valpaços com 447 habitantes, fumeiro de carvalho e sabor concentrado à mesa
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A luz da manhã bate no xisto das casas e demora-se ali, como quem marca lugar no café. Em Friões, a 720 metros de altitude, o silêncio pesa — não é aquele silêncio de igreja, é o silêncio de quem está à espera que o vizinho acabe a frase. São 447 habitantes que cabem todos no adro da igreja, se forem empurrados com jeito, distribuídos por 2816 hectares onde a casa do Zé Manel fica a "dois pontes e meio" da da Dona Amélia.
O peso dos anos nas pedras
Friões é do concelho de Valpaços, onde o Inverno corta como navalha de barbeiro e o Verão queima como ferro de engomar. As casas são de granito e xisto — pedra que, como a gente, aguenta tudo: chuva, sol, promessas eleitorais. Dos 447 recenseados, 251 já ultrapassaram os 65; os miúdos são 10, contando com o neto da Maria que vem passar as férias.
Não há monumentos com estrelinhas no TripAdvisor, mas há o cruzeiro onde o pessoal se encontra para falar da colheita, do preço do leite e da vizinha que "anda aí com umas ideias". A igreja é o centro — não é só fé, é GPS. "Passa pela igreja e sobe" é indicação que toda a gente entende.
Mesa comprida, sabor concentrado
A comida não é para Instagram — é para encher o prato até ele rezar. O fumeiro pendura-se na cozinha como roupa no varal: presunto que o tempo vai curando, chouriça que fica preta como o café do café, salpicão que se come fininho com broa.
O cabrito vai ao forno de lenha no dia de São João, a carne maronesa faz-se na panela de ferro que a avó trouxe de dote. O queijo é terrincho — não é para todos, tem aquele travo que separa os homens dos meninos. O folar aparece nas festas, recheado até parecer barriga de pêra. E as castanhas, quando chega o Outono, fazem-se na tremonha com vinho quente, que é como quem diz: "serve-se a dureza com alegria".
Dois telhados para dormir
Há duas casas para quem quer ficar: a da Amélia e a do António. Ambas têm lareira que funciona, janelas com vista para o mesmo monte (só muda o ângulo) e pequeno-almoço onde a broa chega quente e a compota é da fruta que sobra no quintal.
A estrada para cá é como a vida: curvas apertadas, algumas rectas para enganar, e sempre a subir. Quando o motor cala, ouve-se o vento nos telhados — não é vento de tempestade, é vento de conversa antiga, daquele que vem contar que o Inverno ainda vai durar mais três semanas. Fica na memória como ficam os nomes: sem pressa, mas para sempre.