Artigo completo sobre Lebução, Fiães e Nozelos: castelos, bronze e pontes
Três aldeias de granito em Valpaços guardam ruínas medievais e vestígios celtas no vale do Tinhela
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O vento sobe do vale do Tinhela e traz o cheiro a terra molhada, a carvalho e a fumo de lenha. Aqui, a 685 metros de altitude, o granito aflora nos socalcos e as casas agrupam-se em três núcleos — Lebução, Fiães, Nozelos — unidos administrativamente desde 2013, mas ligados há séculos pela mesma paisagem ondulada e pela memória de um castelo que já não existe. Com 548 habitantes em 2021, a freguesia tem uma densidade de 18 pessoas por km²: território de silêncio, de eco distante de sinos, de passos lentos sobre a calçada irregular.
O tesouro que veio do bronze
No final do século XIX, o Cabeço da Mina entregou à luz um conjunto de joias em ferro com gramática decorativa celta — o chamado «Tesouro de Lebução», hoje no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa. O sítio arqueológico permanece sem sinalética, mas a sua existência ancora a freguesia no Bronze Final e na Idade do Ferro. Mais acima, as ruínas do castelo de Monforte — posto avançado contra Castela, mencionado nas Inquirições de 1258 — dominam o vale. Os habitantes da antiga Terra de Monforte foram isentos de sisa em troca da defesa da fortaleza; quando o castelo perdeu função militar, a vila desceu até Lebução, que chegou a ser sede de município entre 1836 e 1853.
Três aldeias, um rio, pontes de pedra
O rio Calvo separa Lebução de Fiães, atravessado por pontes de pedra que sobrevivem desde a estrada real Chaves-Bragança. Em Pedome, uma delas mantém o arco perfeito, a junta seca, a marca dos canteiros que a levantaram sem argamassa. A Igreja Matriz de Lebução, reconstruída no século XIX mas com retábulo barroco do anterior templo, ergue-se no centro da aldeia; em Nozelos, a capela de Santo Anastácio e um cruzeiro na Rua do Pêro marcam o ritmo devocional que ainda organiza o calendário local. Fiães conserva o topónimo medieval «Sancti Michaelis de Feanes», registado em pergaminhos do século XII. Não há monumentos imponentes, mas há continuidade: o granito das alminhas, o xisto dos muros, a cal caiada que resiste ao inverno transmontano.
Fumeiro, forno e folar
A gastronomia aqui não é espetáculo — é subsistência transformada em sabor. O Folar de Valpaços IGP, recheado com enchidos e carne de porco, sai dos fornos comunitários na Páscoa; o Presunto de Vinhais IGP e a Carne Maronesa DOP chegam às mesas em fatias grossas, acompanhadas de pão de centeio. Nos fumeiros pendem chouriças e salpicões; nas adegas, o vinho da região de Trás-os-Montes amadurece em potes de barro. O Cabrito Transmontano DOP, assado em forno de lenha, e o Queijo Terrincho DOP, de pasta semidura e aroma intenso, completam uma despensa que depende do ciclo das estações e do trabalho manual. A Castanha da Terra Fria DOP, colhida nos soutos que rodeiam a freguesia, entra em sopas, recheios e sobremesas.
A aritmética do abandono
Dos 548 habitantes recenseados em 2021, 267 têm mais de 65 anos; apenas 35 não chegam aos 15. A escola de Lebução fechou em 2016, juntando-se às de Fiães (encerrada em 2009) e Nozelos (2012). As hortas continuam a ser mondadas, os animais pastoreiam nos lameiros, as festas de verão trazem emigrantes de volta. O território — quase 3000 hectares de mato, pinheiro bravo e carvalhal — absorve lentamente as casas abandonadas, mas os caminhos de terra batida ainda conduzem a nascentes, a moinhos parados, a miradouros improváveis sobre o vale do Tinhela.
Quando a tarde desce e a luz rasante acende o ocre do xisto, o fumo das lareiras começa a subir — vertical, denso, cheirando a resina e a memória. É esse fumo, mais do que qualquer placa ou roteiro, que devolve Lebução, Fiães e Nozelos ao mapa dos lugares onde o essencial ainda se mede em gestos, não em palavras.