Artigo completo sobre Sonim e Barreiros: onde o frio tem textura de xisto
Terra Fria transmontana a 499 metros, entre fumeiros, lareiras e 314 almas que resistem ao Inverno
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O fumo sobe lento dos telhados de Sonim e Barreiros quando o Inverno aperta. A lenha estala dentro das lareiras, e o cheiro a castanhas assadas mistura-se com o da chouriça no fumeiro. Aqui, a 499 metros de altitude, o frio tem textura — cola-se à pele, obriga a andar depressa entre a casa e o curral, faz brilhar o xisto molhado das paredes antigas. São 314 pessoas que habitam estes 17,94 km² de Terra Fria transmontana, onde o silêncio se mede pela distância entre uma porta que range e o ladrar de um cão ao longe.
A mesa transmontana sem disfarces
A gastronomia aqui não precisa de justificações turísticas — é a continuação lógica da paisagem. O Folar de Valpaços IGP nasce dos fornos comunitários que ainda funcionam em Barreiros, massa compacta que se come aos pedaços, nunca às fatias. O Cabrito Transmontano DOP pasta nos lameiros em socalcos acima da Ribeira de S. Pedro, e a Carne Maronesa DOP vem das vacas que ainda se cruzam no caminho de terra entre Sonim e o lugar de Cidadelhe. Nas mesas de madeira escura, o Queijo Terrincho DOP tem o sabor exacto desta altitude — forte, sem concessões, feito com leite de ovelhas churras da raça autóctone que pastam nas matas de carvalho da serra. A Castanha da Terra Fria DOP cai das árvores em Outubro, e o som do ouriço a partir-se debaixo das botas é o mesmo que ouvia meu avé quando subia ao souto da Portela.
Nas cozinhas de pedra, o Presunto de Vinhais IGP cura devagar, pendurado nas salgadeiras que o Inverno transmontano mantém a 4-6°C. O Mel da Terra Quente DOP, apesar do nome, produz-se nas colmeias que o Joaquim mantém no alto de Barreiros — tem a cor âmbar dos dias curtos de Novembro quando se extraí pela primeira vez. A Batata de Trás-os-Montes IGP entra em quase todos os pratos: cozida com couve, assada no borralho, esmagada com azeite da casa. Não há refeição sem ela, desde o rancho de sarrabulho até às papas de milho com feijoca.
Viver com 172 invernos
Dos 314 habitantes recenseados em 2021, 172 têm mais de 65 anos. Nove são crianças com menos de 10 anos — sete na escola básica de Barreiros que ainda resiste com duas salas, duas professoras e um auxiliar. Os números dizem o que os olhos confirmam: este é um território de memória longa e futuro incerto. A densidade populacional — 17,5 pessoas por quilómetro quadrado — traduz-se em casas fechadas desde 2008, quintais onde a silva e o feto crescem altos, caminhos que já ninguém percorre desde que o António da mercearia fechou em 2015. Mas também em liberdade de movimento, em horizontes sem obstáculos, em conversas que acontecem sem pressa à porta do café O Padrão, aberto desde 1963, onde o Domingos serve bicas a 60 cêntimos e guarda a chave do forno comunitário.
Os dias aqui têm ritmo próprio. A luz muda devagar sobre os campos de centeio que o Albano ainda semeia em socalcos, o vento do nordeste varre os caminhos de terra vermelha que ligam os lugares, as sombras alongam-se cedo no Inverno quando o sol se esconde atrás do Marão às 16h30. Não há multidões, não há filas, não há ruído que não seja o da natureza a fazer o seu trabalho — ou o trator do Zé a subir a estrada municipal 528 às 7h da manhã quando vai para as terras de Barrela. Há, sim, o peso da solidão demográfica — a escola primária de Sonim fechou em 2006, os jovens partiram para Chaves, Porto ou França, as casas que esperam por alguém que talvez não volte. Mas há também a D. Rosa que faz pão de centeio todas as sextas-feiras no forno do lugar, e o Sr. Aníbal que ainda destila bagaço na alambique de cobre do pai.
O sabor da permanência
Caminhas pelos carreiros de xisto que ligam Sonim a Barreiros — 2,3 km de subida suave onde o cheiro a terra molhada sobe do chão. As vinhas da casta bastarda trepam pelas encostas acima do lugar de Formigueiro, resistentes como tudo o que aqui cresce. Ao fim do dia, quando o sol rasante tinge de laranja as paredes de xisto do espigueiro do Ti Manel, o fumo volta a subir das chaminés. Alguém assa castanhas no borralho. Alguém amassa pão com farinha do moinho de Vilar de Nantes que ainda moía até 1998. Alguém fica — e são esses que mantêm viva esta freguesia que existe desde 1258, quando o rei D. Afonso III a mencionou nas "Inquirições" como "Sonym".