Artigo completo sobre Valpaços e Sanfins: terra do Folar IGP e azenhas
Valpaços e Sanfins, em Vila Real, preserva o Folar IGP e azenhas medievais no rio Torno. Patamares de xisto, fornos comunitários e oliveiras centenárias.
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O cheiro a pão quente mistura-se com o fumo de lenha que sobe dos fornos comunitários — é o cheiro que me faz lembrar as manhãs de domingo na casa da minha avó, quando ela me mandava ir buscar água ao poço e eu voltava com o pão a estalar debaixo do braço. Nas traseiras das casas senhoriais do século XVIII, os quintais ainda guardam oliveiras que a minha avó dizia ser "mais velhas que a própria freguesia". É dia de feira — o primeiro domingo do mês — e os produtores locais montam as bancas na praça principal, junto ao pelourinho que parece um velho a fitar o tempo. O sino da Igreja Matriz de São Tiago marca as horas com aquela lentidão que só quem tem séculos para viver pode ter.
A capital do folar
Valpaços e Sanfins tem uma coisa que nenhum outro sítio tem: o Folar de Valpaços com IGP. Mas olhe, não venha cá esperar encontrar folar todo o ano — é como o melhor vinho, há alturas para tudo. No Museu do Pão e do Folar, se tiver sorte, apanha a D. Lurdes a amassar. Ela diz que o segredo é "não ter pressa e não ter medo de sujar as mãos". O aroma quando o folar sai do forno é aquela memória que me faz voltar a Valpaços mesmo sem querer — é como um fio invisível que puxa.
Entre muros de xisto e bosques de azinheira
A freguesia é como um livro aberto: cada muro de xisto é uma página, cada oliveira uma nota de rodapé. A 427 metros de altitude, o território ondula como as mantas da minha avó quando ela as estendia no estendal. O rio Torno é preguiçoso como um gato ao sol — faz curvas que parecem que vão durar para sempre. Na serra, os trilhos são como as conversas de café: vão dando voltas mas acabam sempre por chegar a algum sítio. O silêncio é denso, do tipo que faz ouvir o próprio coração — e o grito das aves de rapina que parecem estar sempre a dizer "olha onde pisas".
O ciclo ancestral do pão
A Ponte de Pêso é como aquele tio que já viu de tudo: tem arcos romanos mas já foi arranjada tantas vezes que até ela já perdeu a conta. Nas casas senhoriais, os brasões são como fotografias de família — todos olham para a câmara mas ninguém se lembra bem de quando foi. O "ciclo do pão" é aquela coisa que ainda faz as pessoas se reunirem — é como o futebol, mas com farinha. Nas feiras mensais, o cheiro da açorda transmontana é aquele que me faz lembrar que há coisas que o tempo não apaga — é como o cheiro da chuva na terra, mas melhor.
Mesa transmontana
A gastronomia aqui não é para turistas ver — é para comer. O borrego Terrincho DOP é daqueles que fazem os vegetarianos vacilar, o cabrito Transmontano DOP é tão tenro que até parece mentira. A castanha da Terra Fria DOP é como os abraços da minha avó — aperta mas aquece. O mel da Terra Quente DOP derrete sobre o queijo Terrincho como desculpa derrete coração — e os tintos robustos da região de Trás-os-Montes são daqueles que fazem as conversas durar até as estrelas se cansarem de nos ouvir.
Romarias e máscaras de madeira
Em 25 de julho, a romaria de São Tiago transforma a freguesia — é como se todo o ano fosse uma corda de guitarra que se estica até ao dia 25 e depois solta-se numa música que toda a gente conhece de cor. No Carnaval, os caretos de lã e máscaras de madeira são como os segredos da aldeia — todos sabem que estão lá, mas ninguém diz de quem é. Em janeiro, durante as festas de São Sebastião na Capela de Sanfins, a broa é distribuída quente — é como receber um pedaço de céu na boca, mas o céu sabe a milho e a terra.
Quando a feira termina e os produtores desmontam as bancas, fica no ar aquela mistura que é impossível de replicar — é como tentar apanhar o vento num saco de papel. É esse cheiro compósito, único desta praça e deste vale, que se cola à roupa e regressa em memória involuntária meses depois, quilómetros de distância — é como um raio-x da alma que só Valpaços sabe fazer.