Artigo completo sobre Alfarela de Jales: memórias de ouro na Terra Fria
Antiga mina de ouro, castro pré-histórico e sabores transmontanos no coração da montanha
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O silêncio em Alfarela de Jales tem peso. Não é ausência — é a terra a respirar. Ouvi-lo é sentir o granito a ceder sob o sapato, o vento a pentear os soutos onde os castanheiros ainda carregam pegadas de outonos passados. A 773 metros, o ar deita-se na pele como pano húmido: traz o cheiro da esteva queimada, do fumo que escapa pela chaminé do Sr. António, da terra que a chuva de ontem deixou amolecida. Quando o sol despenca atrás das serras, a luz fica tão grossa que se corta com a faca — e é então que o vale do Olo se enche de sombras azuis, como se alguém tivesse derramado tinta na paisagem.
Quando o ouro rangia na garganta
Entre 1933 e 1992, a mina estrangulou o lugar. Os homens desciam às cinco da manhã, com o estômago vazio e a boca a saber a pólvora, e subiam ao fim do dia com os olhos vermelhos de pó e de raiva. A mina era uma boca que engolia filhos — o meu tio perdeu dois dedos no poço 3, e ninguém nunca os encontrou. Hoje, no Centro Interpretativo, a galeria réplica tem um cheiro a azedo que me faz voltar à infância: é o mesmo mofo que impregnava as roupas do meu pai quando ele vinha para casa, deixando pegadas húmidas no chão de xisto.
Mas o tempo é camadas. Atravessamos o souto e o Castro de Jales ergue-se como uma costela de pedra — os romanos estiveram lá, sim, mas antes deles já os nossos avós contavam histórias sobre os "gente de barro" que viviam nas fraldas do monte. A Fraga do Quelho é outra coisa: uma pedra grávida de nomes, onde eu e os meus primos rabiscámos as nossas iniciais com faca de cortar feno, por cima das cruzes medievais e dos spirais que ninguém sabe decifrar. O Pelourinho, agora ao lado da estrada que leva a Vila Pouca, serve de apoio aos sacos de castanhas — mas ainda se vê, no capitel, a coroa desbotada que nos lembra que Jales já foi mais do que um ponto no mapa.
A mesa onde a terra se come
Na casa da minha avó, a mesa era de castanho escuro e cheirava sempre a alho e a borra de vinho. O cabrito não vinha em prato — vinha em tacho de ferro, com a pele pregada ao fundo, e comíamo-lo com as mãos, partindo os ossos para sugar a medula. O cordeiro de leite era do Zé da Tareja, que os criava no campo ao lado da mina abandonada — dizia que a terra lá era mais doce, por causa do sangue dos homens. O cozido transmontano faz-se à sexta-feira, em panela de barro que a minha mãe guarda no forno de lenha desde que se casou. O bucho é recheado com sangue fresco, pão de milho e hortelã do quintal — e nunca, nunca, leva cominho. Para a sobremesa, as tortas de amêndoa são finas como papel de igreja, e o mel escorre devagar, como se a colmeia ainda estivesse a trabalhar.
Onde o silêncio tem sabor
Em Agosto, durante as festas, o adro enche-se de gente que já não cá mora. Os filhos dos filhos voltam com sotaques de Lisboa e de Paris, e os velhos reconhecem-nos pelo olhar — porque o resto já mudou. O cheiro a cabrito assado mistura-se com o do plástico das cadeiras de jardim que a junta alugou, e alguém pões música pimba numa coluna que ranger mais do que toca. Mas às quatro da manhã, quando o último copo é esvaziado e os cães regressam às casas, o silêncio volta — e é ele que fica, como um hóspedo que nunca se foi.
Do miradouro, o vale é um corpo deitado. Vejo as luzes da aldeia vizinha a piscar como olhos cansados, o milhafre a cortar o céio em círculos perfeitos — e, lá em baixo, o rio Olo a serpentear entre pedras que já viram passar romanos, mineiros, e agora só veem passar o tempo. Quando a noite cai de vez, o silêncio pesa tanto que até os pensamentos fazem barulho. E é então que sei: Alfarela de Jales não é um lugar onde se vai — é um lugar onde se fica, mesmo depois de partir.