Artigo completo sobre Capeludos: onde o granito guarda memórias de capelos
Vila Pouca de Aguiar preserva tradições em 363 habitantes, cruzeiros antigos e cordeiro de Barroso
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O sino da igreja de São João Baptista bate três vezes, seco, como quem bate à porta de ninguém. O som fica suspenso entre os soutos, escorre pelos muros de pedra que ainda guardam o calor do dia e morre no carvalhal onde as vacas maronesas mascam devagar, sem desconfiar do tempo. A 605 metros, Capeludos não se mede em altitude: mede-se no cheiro do fumeiro que escorrega pela telha, no granito que arde aos pés em Agosto, na terra que se agarra às unhas na primeira enxadada da Primavera. Quem passa pergunta pelo nome; quem fica explica que os capelos de palha — aquelas capas que os pastores lançavam às costas quando o céu se partia — ainda roçam a memória, até o vento parecer palha molhada.
O peso do granito e dos séculos
A igreja matriz é como toda a igreja do Barroso: granito por fora, humidade dentro. Dizem que é setecentista, mas o primeiro baptismo nos livros é de 1692 e o certo é que o tecto de madeira ainda rangue como se protestasse contra o tempo. Pelas aldeias — Vilarinho, Carrazedo, Freixeda, Adagoi — os cruzeiros não são monumento; são marco de quem regressa a pé depois do trabalho e se cruza consigo mesmo. Na Natividade, em Pardelhas, o coreto hexagonal é apenas isso: um coreto. Mas a 8 de Setembro enche-se de bombos e clarinetas, o cheiro do assado sobe-lhe pelas pernas e, durante três horas, a aldeia tem pressa.
Entre os papéis lá de casa, a Casa de Carrazedo foi dando escrivães e capitães como quem vai trocando sementes ao pé da porta. Gonçalo Borges, senhor de Carrazedo e Vilarinho, morreu em 1714 e deixou filhos, dívidas e uma espada que ainda hoje serve para abrir latas. Hoje são 363 almas, 187 com mais de 65 anos. A Junta ergueu-se em 2013, mas na escola de Carvela só três crianças aprendem a ler — o corredor ecoa tão alto que a professora diz boa-tarde duas vezes, para ouvir-se a si mesma.
Cordeiro, lítio e a oficina do ferrador
Na tasquinha de Vilarinho não há ementa: pergunta-se o que há, aceita-se o que vem. O cordeiro é do dia quando o forno de lenha está quente; a pele estala entre os dentes, a batata vem regada ao caldo dos ossos e ninguém fala enquanto o prato não estiver limpo. A chanfana vai na panela de barro desde manhã, os enchidos pendurados no fumeiro perdem gordura gota a gota, e o mel de urze — esse nem precisa de pão: um dedo é suficiente. Em Janeiro ainda se mata o porco como se o ano dependesse disso: duas mesas de madeira, uma para o sangue, outra para a carne, e conversa só depois da sopa de sangue arrefecer.
Mas o coro das máquinas já ronca no horizonte. Em Adagoi o quartzito tem espodumena — química que nenhum habitante soube pronunciar até água mineral virar lítio. Petições, assembleias, jornalistas de Lisboa que perguntam se se vai vender a terra. A resposta vem na oficina do ferrador, à Rua de Baixo de Carvela: fogo na forja, bigorna que canta, cheiro a casco queimado. Ferraduras novas para o burro do Zé, ajustadas à martelada, como se o futuro ainda precisasse de quatro patas.
Trilhos entre o silêncio e o murmúrio
O caminho de Vilarinho a Carrazedo começa no cheiro da esteva esmagada e acaba no pó que sobe do sapato. Entre meio, as eiras de aduar onde o milho dormia ao sol, os espigueiros de pedra que ainda têm ouriços presos às paredes, a fonte onde as mulheres batiam a roupa e os homens vinham beber água antes de ir para a guerra. O vento nos soutos não é música: é aviso de chuva. Às vezes uma águia-rabilheira raspa o céu, outras vezes só se ouve o próprio coração — a subida puxa às pernas e empurra a cabeça para dentro.
No coreto de Pardelhas, o silêncio é tão redondo que se ouve a ferrugem a crescer. Faltam quinze dias para Setembro e ainda ninguém ensaiou. Mas o adro já foi varrido, a cera está derretida no castiçal, os bombos esperam dentro do armário da Junta. Quando o sino bater, as portas abrem-se de repente, o cheiro a pólvora tapa o nariz e, durante um minuto inteiro, Capeludos deixa de ser aldeia: é apenas o sítio onde todos cabemos. Depois, a procissão regressa, a banda guarda os instrumentos, a poeira assenta. Fica o ranger de uma porta de madeira que o vento empurra, empurra, até alguém se lembrar de a fechar.