Artigo completo sobre Relógio de sol e 350 espigueiros em Pensalvos
Freguesia transmontana onde canastros superam habitantes e o tempo marca-se em sombras de aço
Ocultar artigo Ler artigo completo
O relógio de sol digital projeta números frios no chão da praça. Aço corten que enferruja depressa nestas chuvas — já está mais ferrugem que aço — lança sombras que ninguém olha. São onze e meia, não meio-dia: a escultura veio de Braga em 2012 e nunca acertou na hora. À volta, os espigueiros de madeira — trezentos e cinquenta, mais do que os duzentos e oitenta e oito habitantes — guardam agora ferramentas enferrujadas e ninhos de andorinhas. A freguesia nasceu da fusão administrativa de 2013, mas o território respira séculos mais antigos.
Pedra, brasão e ex-voto
A Igreja Matriz de Santa Eulália cheira a cera queimada e roupa molhada. O retábulo barroco perdeu dourado para o tempo; os azulejos setecentistas têm rasgos onde as crianças encostam dedos pegajosos. Foi o padre Joaquim Augusto Borges de Carvalho, primo dos Borges Montalvão, quem mandou pôr as torres mais altas — diziam que era para os mortos ouvirem melhor as campainhas. Ao lado, o Solar dos Borges Montalvão tem pedras de armas que o tempo amaciou até parecerem seixos. A linhagem acabou em Lisboa, mas aqui ficaram as janelas partidas e o cheiro a raposa nos celeiros. Em Parada de Monteiros, a Capela de Nossa Senhora dos Aflitos foi erguida em 1918 por promessa contra a gripe espanhola. Os ex-votos de cera — braços, pernas, corações — derretem-se no verão e pegam-se ao chão de madeira.
Caminhos entre canastros
O trilho PR4 sobe por entre silvas que roçam nas pernas. Passa pela fonte onde as mulheres levavam a roupa até há dez anos — agora só vêm cães beber. Os canastros estão rotos, as ripas soltas fazem ranger na ventania. No Cimo do Pão, o miradouro tem uma bancada de cimento onde os rapazes fumam finos à noite. Vê-se o Planalto de Santa Eulália — seiscentos e quarenta e sete metros onde o vento corta a cara — e os soutos que os velhos já não vão limpar. A ribeira de Pensalvos corre entre pedras lisas de tanta gente se sentar. No Poço Negro, os miúdos saltam de cabeça nos dias de agosto, quando a água não está gelada. Ao entardecer, junto ao açude, os abutres sobem em círculos aproveitando as correntes de ar quente — não são do Egipto, são os nossos.
Fumeiro, mel e borrego de leite
A feijoada transmontana leva castanhas cortadas à faca pela Maria do Céu. O fumo do forno de lenha entranha-se na roupa e faz chorar os olhos. O borrego de leite vem do Zé Manel, que mata aos domingos de manhã — a pele estala na grelha e a gordura cai para as brasas. Na tasquinha da Festa da Vila, última semana de Agosto, o António serve chouriço de ossos que ainda escorre quando se corta. O mel de Barroso é escuro, quase preto, e tem sabor a esteva — as abelhas não têm muito mais onde ir. Os bolinhos de Santa Eulália são massa frita que a Avó Albertina faz às três da manhã, antes da missa de 10 de Fevereiro. O pão de centeio de Pensalvos pesa um quilo e faz cócegas na garganta se não se beber água. O vinho tinto do ano passado ainda está aferroado, mas aquece o estômago.
Memória viva nas mãos
Maria da Conceição Borges, a Tia Zefa, morreu em 2015 aos noventa e um anos. Fiandeira que punha os netos a cardar enquanto cantava loas que ninguém percebia. As Fiandeiras de Soutelo de Matos encontram-se quando há telefonemas — sobreturistas alemães que querem ver "tradição". Sentam-se à roda da lareira, as mãos grossas movem-se rápidas por costume, não por vontade. A lã vem de ovelhas que já não são daqui. Lá fora, o relógio de sol continua a errar a hora — mas ninguém precisa dele para saber quando é hora de jantar.