Artigo completo sobre Soutelo de Aguiar: fumeiro aceso a 753 metros
Entre as serras do Alvão e da Padreira, a freguesia vive ao ritmo dos enchidos e da montanha
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O fumeiro está aceso na casa de pedra junto à estrada. O fumo branco sai pelo telhado de lousa e desce pela encosta, misturando-se ao nevoeiro da manhã. Lá dentro, pendem chouriças e presuntos que levam meses a ganhar a crosta escura e o aroma a carvalho. A 753 metros de altitude, Soutelo de Aguiar acorda devagar, ao ritmo das 602 pessoas que resistem entre as serras do Alvão e da Padreira, numa paisagem onde cada metro quadrado foi negociado com a montanha.
O nome vem de longe: subtel(l)um, pequena dependência rural em latim, território ligado à antiga terra de Aguiar de Pena, já documentada nos primórdios da nacionalidade. A freguesia estendeu-se pelos 17,4 km² de vales férteis e pastagens altas, sempre sob a sombra distante do castelo roqueiro, sempre à margem das grandes rotas. Não há foral próprio registado, mas há cartas régias nos séculos XII e XIII que organizam o território envolvente e deixam marcas na toponímia e na forma como se divide a terra.
Pedra, madeira e silêncio
O único Monumento Nacional classificado na freguesia — uma cruzeiro do século XVIII que ninguém lhe sabe dizer ao certo o ano — partilha o espaço com a capela de São Sebastião, ponto de paragem de quem percorre os caminhos rurais que ligam Soutelo de Aguiar a Vreia de Bornes e Valoura. Os trilhos de pé-posto sobem entre muros de granito cinza, atravessam socalcos onde ainda se planta batata de Trás-os-Montes IGP e contornam currais de gado bovino e caprino. Os carvalhais e soutos de castanheiro cobrem as encostas; a Ribeira de Soutelo, afluente da Ribeira de Pena, corre no fundo do vale, marcando a fronteira entre propriedades que se herdam há gerações.
A população envelheceu: 205 pessoas com mais de 65 anos, 62 crianças até aos 14. A densidade de 34,66 habitantes por quilómetro quadrado traduz-se em casas espaçadas, eiras comunitárias que já não veem tanto cereal e moinhos de água parados. Mas há vida nos currais, nos fumeiros, nas vindimas de setembro. E há o Zé do Cafezinho que todos os dias às sete da manhã abre a porta do bar e serve o primeiro bica ao António do Cacho, como faz há trinta anos.
À mesa, o que a montanha dá
A gastronomia de Soutelo de Aguiar não precisa de artifícios: é o que a altitude e o pasto oferecem. Cabrito de Barroso IGP e Cordeiro de Barroso IGP — anho ou borrego de leite — assados na brasa ou cozinhados em chanfana e ensopado. Carne Maronesa DOP, de vacas criadas soltas nas pastagens altas, servida em cozido transmontano onde a batata estonada absorve o caldo. Presunto de Vinhais IGP ou Presunto Bísaro de Vinhais IGP, cortado fino, acompanhado de broa e vinho transmontano. Mel de Barroso DOP, recolhido nos apiários de urze e castanheiro, rematando papos de anjo e cavacas.
Não há restaurantes no TripAdvisor, mas há a Dona Amélia que faz bacalhau com broa na casa dela se telefonar com dois dias de antecedência. E há o tasco do Júlio que só abre aos sábados à noite e serve chanfana no prato de barro, molhada com vinho da casa que vem do quintal do pai. Fora da Festa da Vila e do Concelho — evento que reúne as catorze freguesias do município em procissões, música e feira de artesanato —, é preciso contactar previamente para visitas guiadas aos lagares comunitários e aos espigueiros ainda de pé. O segredo é perguntar na mercearia: a Teresa conhece toda a gente.
Fora do mapa turístico
Soutelo de Aguiar não integra geoparque, reserva da biosfera nem itinerário oficial do Caminho de Santiago. Não há praias fluviais divulgadas, nem rotas de BTT assinaladas. A freguesia mantém-se fora do radar das massas e, desde 2021, carrega outra peculiaridade: é a única das catorze do concelho presidida pelo PS; as restantes treze estão sob liderança do PSD. Pequeno detalhe político que ilustra a teimosia local de não seguir sempre a corrente — "aqui sempre se fez à nossa maneira", diz o presidente da Junta com um meio sorriso.
A única moradia registada como alojamento turístico dá para perceber a escala: quem vem, vem devagar, combina antes, traz tempo. Nos trilhos que sobem entre carvalhos, o som é o das folhas secas sob as botas, o vento frio que varre a serra e, ao longe, o sino da capela que marca as horas. O fumo do fumeiro continua a subir, branco contra o cinza da pedra. Aqui, a montanha não se visita de passagem — habita-se, respira-se, sente-se no estômago vazio da subida e na alegria de chegar ao topo e ver o mundo lá em baixo.