Artigo completo sobre Tresminas: Minas Romanas e Ouro Enterrado no Granito
Vila Pouca de Aguiar guarda galerias subterrâneas onde Roma extraiu toneladas de ouro transmontano
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Ouro enterrado, memória exposta
O Complexo Mineiro Romano de Tresminas não é ruína para contemplar — é um labirinto que ainda respira. As galerias descem quarenta metros, com marcas de picareta frescas como se as tivessem feito ontem. O granito está sempre húmido, mesmo no Verão mais seco. A água corre pelas paredes num fio constante, o mesmo sistema de canais que vinha de vinte quilómetros lá em baixo para lavar o minério.
Quando a mina reabriu nos anos 50, os homens vinham a pé de Ermelo e de Rebordelo antes do sol nascer. Trouxeram electricidade, posto médico e máquinas alemãs que ainda hoje estão lá enferrujadas. A Maria do Cais da Vila lembra-se de ver luzes pela primeira vez — "parecia Natal todos os dias", diz. O encerramento em 1970 levou-se os homens, deixou-se as vagonetas e um silêncio que ainda se ouve quando o vento pára.
Pedra, talha e procissão
A Igreja Matriz tem cheiro a cera quente e madeira antiga. A talha dourada do alto do altar parece mexer-se quando a luz entra pelas frestas ao fim da tarde. Em agosto, a Festa de São Bartolomeu enche a praça de terra batida. O arraial monta-se na sexta-feira, com as bancas de castanhas e o quente de aguardente que afoga a garganta. As concertinas tocam até de madrugada, mas é o silêncio entre músicas que mais marca — aquele momento quando toda a gente respira ao mesmo tempo e se ouve o cão a ladrar lá em baixo no Olo.
Fumeiro, forno e tigela de barro
O forno do Zé Mário aquece desde as cinco da manhã. O cabrito tem de ser de Barroso, com a pele fina que estala no dente. A bola de carne faz-se com pão de alheira do dia anterior, amassado com toucinho fumegante e carne de porco que esteve no sal três dias. O vinho é servido em tigelas de barro que os netos ainda tentam não partir — cada uma tem a sua história, o seu nó na madeira da cozinha que a avó faz questão de contar. O mel de Barroso é tão denso que se come com colher, dourado como o pó que os velhos ainda encontram nos bolsos das calças de trabalho.
Trilhos de quartzo e urze
O trilho PR1 começa mesmo à saída da aldeia, onde o cão do Joaquim ladra sempre aos primeiros passantes. A urze está sempre a mudar de cor — roxa no Inverno, amarela quando vem a Primavera. No km 3, há um carvalho alto onde se vê o Olo inteiro. É ali que os miúdos vêm fumar os primeiros cigarros e os casais se beijam pela primeira vez. O Parque Arqueológico abre quando o Aníbal tem vontade, mas bate à porta de casa dele que ele abre. Mostra as lucernas romanas como quem mostra fotografias da família — "esta aqui era da minha avó", diz, apontando para uma lâmpada de barro queimado.
Quando o sol se põe atrás da Padrela, as bocas das minas ficam escuras de mais, perigosas de mais. Mas é ali que ainda se sente o cheiro a pó de quartzo, misturado com o medo e a esperança que ficou preso às pedras. O frio que sai de lá é o mesmo de há dois mil anos — faz arder os pulmões e os olhos, mas também faz voltar.