Artigo completo sobre Valoura: Três Aldeias Unidas por Pedra e Tradição
Igreja de Santa Iria, moinhos antigos e relógios de sol marcam esta freguesia serrana de Vila Real
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sol da manhã risca o granito do cruzeiro manuelino junto à igreja, desenhando sombras compridas sobre a calçada irregular. De dentro do templo de Santa Iria chega o frescor denso da pedra antiga, misturado ao cheiro a cera de vela e madeira velha. Nas paredes, a luz filtrada pelos vitrais ilumina a imagem gótica da padroeira — madeira policromada do século XV, manto azul desbotado pelo tempo, olhar sereno sobre os bancos vazios. Lá fora, o sino toca as nove horas. O eco viaja pelo vale, bate nas encostas da serra da Padrela e regressa transformado, mais grave, mais lento.
Três aldeias, um território de pedra e água
Valoura distribui-se por três núcleos — a sede, Vila do Conde e Cubas — unidos por caminhos de terra batida e regatos que descem da serra. Entre eles, moinhos de pedra abandonados marcam o percurso das antigas levadas. Alguns ainda conservam os rodízios de madeira, presos pela ferrugem e pelo musgo. O granito está em todo o lado: nos muros de socalco, nos fontanários com bicas esculpidas, nos cinco relógios de sol espalhados pelas aldeias, alguns com inscrições latinas quase ilegíveis. Na Capela de Santa Bárbara, em Cubas, a vista abre-se sobre o vale do Tâmega — pinhais autóctones a perder de vista, giesta amarela nos matos, o risco prateado de um ribeiro lá em baixo.
A festa que traz de volta quem partiu
Em agosto, a Festa da Vila e do Concelho transforma Valoura. As ruas enchem-se de carros com matrículas francesas e luxemburguesas, vozes que regressam carregadas de sotaque estrangeiro. A procissão sai da igreja ao som da banda filarmónica, passa pelo cruzeiro, desce até ao largo onde a missa campal junta três gerações debaixo das árvores. À noite, o arraial acende as luzes de sempre — o cheiro a sardinha assada mistura-se com o fumo das brasas, a música popular sobe até tarde, os miúdos correm entre as bancas de artesanato. No dia 29 de outubro, celebra-se Santa Iria com a bênção do pão e a distribuição do bolo tradicional, receita guardada pelas mulheres mais velhas da aldeia.
Sabores que resistem ao tempo
O cabrito assado no forno de lenha é prato de honra nos almoços de domingo — carne tenra, temperada com alho e vinho da região, servida com batata de Trás-os-Montes assada na própria gordura. A chanfana cozinha devagar em panela de barro, o molho escuro e denso a pedir broa de milho para limpar o prato. Nos fumeiros das casas, pendem presuntos bísaros de Vinhais e chouriças de carne Maronesa, protegidos pelo fumo de carvalho. Na Páscoa, o folar de Valoura — massa fofa recheada com enchidos — circula de mão em mão no Domingo da Ressurreição. À sobremesa, cavacas de leite e doce de abóbora com noz, acompanhados por aguardente velha de medronho.
O trilho que a avó fazia de sandálias
O trilho que liga Valoura a Cubas serpenteia por entre soutos de castanheiro centenários, cruza regatos de água fria, passa por capelas esquecidas. São três quilómetros de baixa dificuldade, calcetados pelo granito gasto de gerações. Ao entardecer, no miradouro do Calvário, águias e milhafres desenham círculos lentos sobre o vale. O silêncio aqui tem textura — denso, mineral, apenas cortado pelo vento nos pinheiros.
A imagem gótica de Santa Iria continua na penumbra da igreja, mãos juntas sobre o peito, madeira escurecida por setecentos anos de orações. Quem se aproxima vê, na base da escultura, as marcas dos dedos de quem a tocou pedindo protecção — sulcos finos, polidos pelo gesto repetido.