Artigo completo sobre Vreia de Jales: altitude, fumeiros e silêncio serrano
Entre granito e vento a 833 metros, uma freguesia transmontana onde o tempo cura presunto e memórias
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O silêncio em Vreia de Jales tem peso. Chega-se ao pé da aldeia e o rádio do carro começa a apitar — é o contraste entre o seco do ar e a humidade que se leva da vallata. A estrada sobe os oitocentos e tal metros, mas quem vem de fora só sente que o nariz seca e a voz muda. As casas graníticas agarradas à encosta parecem ter crescido ali, não sido postas. O vento — esse não engana — sobra sempre do mesmo lado, traz o cheiro a resina e, em dias bons, a esteva em flor.
O inverno chega em outubro e só larga a terra em abril. As frentes de granito das casas têm um metro de espessura; dentro, o pão que a Genoveva vai buscar às seis da manhã ainda está morno do forno comunitário. No fumeiro, o presunto de raça bísara perde aos poucos a água que carregou — cada mês que passa vale quinhentos gramas a menos na balança. Quem tem menos de cinquenta saiu, quem tem mais de sessenta ficou. Sobraram duzentos e tal almas que ainda sabem a hora certa de abater o porco e o dia exato em que a cerração deixa de cheirar a mofo.
A mesa que resiste
Não há ementa, há pote. O cabrito vai ao forno depois de passar a noite de molho no vinho branco que o António faz na adega — uvas de esgueira, só o suficiente para cobrir o fundo da travessa. A carne maronesa não precisa de molho: o animal andou tanto que a gordura já vem saborosa. A batata amarela de Trás-os-Montes, daquelas que parecem bolas de gude, leva só sal e um fio de azeite caseiro; quando abre, fuma-se como se guardasse o verão dentro. O presunto de Vinhais, depois de seis meses na lareira, serve-se em fatias tão finas que se enrolam sozinhas no prato. O mel, escuro como café, pesa na colher — é denso porque a urze não dá flor de graça.
Festa da Vila e do Concelho
Uma vez por ano, o lugar engorda. Voltam os filhos que foram para a Suíça ou para o Barreiro, enchem-se as esquinas de Mercedes com matrícula suíça e de carrinhas com o pó do Alentejo. A tarde começa com caldo verde fumegante na panela de cobre e acaba com o rancho a tocar o “Verde Gaio” até às três da manhã. Quando o último acorde termina, sobra um silêncio que até custa nos ouvidos — e o cheiro a fritos que impregna a camisola durante a viagem de regresso.
O que fica
Não há sinal de estrada, nem loja de souvenirs. Há é um coreto sem banda, uma fonte onde ainda corre água de verdade e um café que abre quando o Zé quer. Caminhar por Vreia é receber a pedra na sola das sapatilhas e ouvir, lá ao longe, o som seco da machadinha a partir a lenha. Quando a noite desce, o frio pica como alfinetes; as estrelas surgem de súbito, tão perto que parecem que vão cair em cima das chaminés. Dentro das casas, o lume range. Lá fora, o vento leva o cheiro a fumo que anuncia o dia seguinte.