Artigo completo sobre Mondrões: onde a pedra guarda séculos de fé e vida
Entre o Parque Natural do Alvão e o Douro, a freguesia vive ao ritmo das festas e da tradição
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O sol da tarde bate na pedra clara das casas e devolve um calor seco que contrasta com a frescura que sobe do vale. Mondrões estende-se nos 521 metros de altitude, entre o verde profundo do Parque Natural do Alvão e as encostas que descem em direcção ao Douro. O silêncio aqui não é vazio — ouve-se o vento nas árvores, o ladrar distante de um cão, o arrastar de uma cadeira no adro da igreja. É um silêncio habitado, onde os 948 habitantes mantêm um ritmo próprio, alheio à pressa das cidades.
Pedra, fé e memória
A freguesia guarda três monumentos classificados — a Igreja de São Frutuoso (Monumento Nacional desde 1910), a Capela de São Sebastião (Monumento Nacional desde 1922) e a Casa do Conselho, antiga sede da junta de freguesia do século XVIII (Imóvel de Interesse Público desde 1982). A pedra testemunha séculos de ocupação humana, de devoção, de trabalho. Os portais gastos pelo toque de gerações que aqui pediram protecção, celebraram nascimentos, choraram mortes. Não há espectáculo, apenas presença.
As festas sucedem-se ao longo do ano — São João (24 de Junho), São Pedro (29 de Junho), Santo António nas Festas da Cidade (primeiro fim-de-semana de Julho), Santa Maria da Feira (segundo fim-de-semana de Agosto), Santa Bárbara (4 de Dezembro), São Frutuoso (dia 16 de Abril). Cada celebração traz consigo a memória de outras, o eco de procissões antigas, o cheiro a cera e incenso misturado com o fumo das sardinhas assadas. São momentos em que a população se adensa, em que os emigrantes regressam, em que as ruas estreitas enchem de vozes e risos.
Entre Alvão e Douro
Mondrões situa-se num dos territórios mais singulares do Norte de Portugal, onde o Parque Natural do Alvão (criado em 1983) se encontra com a região vinhateira classificada pela UNESCO como Património Mundial desde 2001. De um lado, a montanha granítica, os cursos de água fria, os lameiros verdes que alimentam o gado Maronês. Do outro, as encostas de xisto onde a vinha se agarra em socalcos, produzindo os vinhos que marcam Trás-os-Montes e o Porto e Douro.
A Carne Maronesa DOP e o Queijo Terrincho DOP não são apenas produtos certificados — são o resultado de um sistema pastoril que aqui se mantém desde os tempos medievais. O gado Maronês, raça autóctone reconhecida desde 1886, pastura nas brenhas do Alvão a mais de 1000 metros de altitude. O leite para o Terrincho vem das ovelhas churras da raça autóctone, tradicionalmente ordenhadas manualmente nos estábulos de pedra que ainda hoje se mantêm nas aldeias.
Caminho de peregrinos
O Caminho de Santiago Interior, também conhecido como Via Lusitana, atravessa Mondrões desde 2004, quando foi reconstituído pela Associação dos Amigos dos Caminhos de Santiago. Os peregrinos que seguem a pé ou de bicicleta encontram aqui um ponte de passagem obrigatória entre Vila Real e Mirandela, a 35 quilómetros da fronteira com Espanha em Sendim. O marcador de granito com a vieira à entrada da aldeia indica 135 quilómetros até Santiago. O granito gasto das calçadas medievais guarda a memória de milhares de passos — desde os romeiros que em 1143 passavam aqui a caminho do túmulo do apóstolo, até aos caminhantes de hoje que procuram alojamento nos quatro estabelecimentos locais.
Com 11,1 km² de área e menos de 86 habitantes por quilómetro quadrado, Mondrões tem a terceira densidade populacional mais baixa do concelho de Vila Real. Dos 948 residentes, 260 têm mais de 65 anos — foram eles que viram partir 300 jovens nos anos 60 e 70 para a França, Suíça e Luxemburgo, reduzindo a população pela metade desde 1960. Ao final do dia, quando a luz rasante ilumina as fachadas voltadas a poente, o que se sente é a densidade tranquila de um lugar que perdeu metade dos seus habitantes mas manteve a alma.