Artigo completo sobre Aricera e Goujoim: vinhas em socalco e castanha DOP
Duas aldeias unidas a 699 metros de altitude, entre terraços de vinha e castanheiros centenários
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O granito aquece ao sol da tarde e os socalcos descem em degraus irregulares até onde a vista alcança. Aqui, a 699 metros de altitude, o Douro desenha-se em curvas lentas lá em baixo, e o silêncio só é interrompido pelo vento que sobe do vale e faz ranger as portas de madeira das casas. Aricera e Goujoim são duas aldeias unidas administrativamente desde 2013, mas ligadas há muito mais tempo pela mesma paisagem de vinhas, castanheiros e pedra seca.
Vinhas que sobem ao céu
Os socalcos estendem-se em terraços estreitos, construídos ao longo de gerações com muros de xisto empilhado sem argamassa. As vinhas agarram-se à encosta, os troncos retorcidos pelo esforço de crescer em terra magra. Esta é a região do Porto e Douro, classificada pela UNESCO como Alto Douro Vinhateiro, e aqui o vinho não é apenas uma tradição — é a geometria da própria paisagem. Entre as vinhas, os pomares de macieiras acrescentam uma nota de verde mais claro, recordando que Armamar é terra de maçã de montanha.
A aldeia de Aricera mantém casas térreas com varandas de madeira e telhados de telha castanha. Em Goujoim, o traçado medieval ainda se adivinha nas ruas estreitas onde mal passa um carro. São 185 habitantes apenas, distribuídos por estas duas povoações e pelos montes em redor — 58 deles com mais de 65 anos, 13 crianças que correm entre os largos empedrados.
Castanha com nome próprio
Além das vinhas, há aqui outro produto que carrega consigo uma distinção rara: a Castanha dos Soutos da Lapa DOP. Os castanheiros crescem nos vales mais abrigados, e no outono o chão fica coberto de ouriços abertos. A castanha assada ao lume, com a casca estourada pelo calor, é presença obrigatória nas feiras e romarias. À mesa, o cozido à portuguesa e o bacalhau assado mantêm o registo da cozinha transmontana, pesada e reconfortante como convém a estas altitudes.
Romarias que marcam o ano
O calendário religioso organiza a vida da freguesia. A Romaria a Nossa Senhora da Piedade, a Romaria a Nossa Senhora das Dores com a Feira de Santiago, e a Romaria a São Gregório enchem os adros das capelas com procissões, missas cantadas e bancas de comes e bebes. Nesses dias, as ruas enchem-se de gente vinda das aldeias vizinhas, a música tradicional ecoa entre as casas, e o cheiro a sardinha assada mistura-se com o fumo das fogueiras.
Caminhar por aqui é seguir a lógica antiga da paisagem: de vinha em vinha, de muro em muro, sempre com o Douro lá em baixo como referência. Não há trilhos sinalizados nem placas interpretativas — apenas caminhos de terra batida entre os socalcos, estradas estreitas que serpenteiam pela encosta.
Ao fim da tarde, quando a luz rasante pinta de dourado as pedras dos muros e a sombra dos castanheiros se alonga sobre a terra, ouve-se o sino de uma capela a chamar para a reza. É um som metálico, breve, que sobe pela encosta e se perde no vento.