Artigo completo sobre São Romão e Santiago: vinhas em socalco e memória viva
Duas aldeias unidas no mapa, separadas por 2,2 km e tradições próprias no coração de Armamar
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O fumo sobe torto da chaminé da padaria — ainda não há vento — e leva o cheiro da broa que a Alda tirou do forno às seis e meia. A calçada está escura de orvalho, mas o sol que nasce por trás do Marão já lhe vai mexendo nas bordas. Lá em baixo, nos socalcos de xisto, a vinha começa a mostrar o cobre, mas ainda falta um mês para a vindima. Entre as parras, o vale do Douro esconde-se na névoa como quem não quer ser encontrado.
Duas igrejas, duas aldeias
São 2,2 km de estrada municipal entre São Romão e Santiago, mas quem as percorre a pé no domingo das Missas sabe que são mais: sobe-se a Costa de Santiago, desce-se à Ribeira de Água Quente, cruza-se o souto onde o António plantou castanheiros novos depois do incêndio de 2017. Na igreja de São Romão, o retábulo maneirista perdeu dourado no lado direito — foi a humidade de 2009 — mas os azulejos do Evangelho ainda contam a história toda a quem souber ler. Em Santiago, o frontão quebrado não é de propósito: caiu pedra em 1926 e ninguém juntou dinheiro para o arranjar. As casas senhoriais com brasões são agora três: uma serve para alojamento local, outra está vedada desde que o emigrante francês faleceu, a terceira ainda tem a cave cheia de pipas de 1965.
No Monte da Senhora da Piedade, a ermida tem a porta encostada com um prego desde que o padre deixou de vir no domingo. Mas no primeiro domingo de Setembro, a Maria do Carmo abre-a às sete da manhã, põe três velas e espera. Às nove, começam a chegar os tractores com os bancos cobertos de colchas. Há sopa de nabos, castanhas assadas no tacho do Júlio, e aguardente que o José traz em garrafões de cinco litros. A romaria não tem banda — há um altifalante ligado ao carro do presidente da junta — mas os cânticos ao desafio duram até a sombra do eucaliptal chegar ao adro.
O que o ano traz
Em Setembro, as casas que estão fechadas desde Páscoa abrem-se. Os filhos que partiram para Lisboa ou para Lyon aparecem com crianças que não sabem pisar uvas. O lagar comunitário de Santiago — aquele que ainda tem a prensa de madeira — funciona durante duas semanas. A Touriga Nacional é pouca: plantaram-se mais amendoeiras depois do gelo de 2017. Mas há sempre uvas para fazer vinho de mesa, que o Adelino guarda em garrafões de vidro sob a escada.
Nos Soutos da Lapa, a castanha é colhida de luvas porque os ouriços são mentirosos. A árvore 37 — aquela que tem a casca partida pelo relâmpago — dá castanhas grandes demais para vender, perfeitas para os doces da Celeste. O trilho PR1 está marcado com tinta amarela, mas depois da tempestade de Outubro há dois pontes de madeira por substituir. Ainda assim, dá para ir do cruzeiro de Santiago ao cruzeiro de São Romão sem molhar os pés, se se souber onde a ponte de pedra aguenta o peso.
O que se come quando se é de cá
A chanfana não é de todos os dias — é para quando o bode já não dá leite e o António decide que é tempo. Leva três dias: um para matar, outro para demolhar, outro para cozer com vinho tinto do ano passado e colorau da loja do Fundão. Na quarta-feira de mercado em Armamar, compram-se os enchidos: morcela de arroz do Valdemar, chouriço de vinho do Zé Mário, salpicão que a mulher do Adelino fuma em cima da lareira durante três semanas. O azeite é do Lagar do Paco: leva duas horas para moer trinta quilos de azeitona e dá para encher dez garrafões de cinco litros. À sobremesa, o bolo de noz é da receita da avó Aninhas — ninguém sabe quantas nozes, ela punha "à olho". O folar só se faz na Páscoa, mas se houver visita aparece do congelador, fatiado fino, com doce de ovos que a Ilda faz em lume brando durante quatro horas.
Quando a noite cai e o cão do Júlio deixa de ladrar, sobe-se ao monte. O telescópio da câmara está trancado com cadeado — perdeu-se a chave em 2020 — mas não faz falta. A Via Láctea está lá toda, por cima dos soutos e das vinhas que já ninguém rega. Lá em baixo, na aldeia, a luz da cozinha da Alda ainda está acesa. Deve estar a amassar o pão para o dia seguinte — são quatro fornadas por semana, desde que o filho abriu o café na estrada.