Artigo completo sobre Beijós: onde o Dão amadurece entre vinhas e pastagens
Freguesia de Carregal do Sal combina tradição vinícola com produtos DOP da Serra da Estrela
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O cheiro a lenha queimada — esse que te faz lembrar as tardes de domingo na casa dos avós — mistura-se com o aroma adocicado do mosto que ainda está a dar o primeiro arroto. Estamos mesmo no meio do Dão, onde as vinhas sobem as encostas como se procurassem melhor lugar para ver o pôr do sol. Beijós fica lá para baixo, a 243 metros, num vale que parece ter sido desenhado por quem gosta de horizontes largos mas sem exibicionismos.
São 1252 hectares e 814 almas. Façam as contas: dá 65 pessoas por km², o que é pouco mais do que os carvalhos que aqui nascem solitários entre o xisto. Dizem os censos que 257 têm mais de 65 anos. Tradução: há mais gente a recordar o tempo em que os campos se lavravam a bois do que miúdos a raspar os joelhos de bicicleta. Mas ainda assim, quando a escola primária abre, ouvem-se gritos que impedem o lugar de virar postal antigo.
O que se come (e se bebe) sem fazer drama
O Borrego Serra da Estrela DOP é daqueles que nem precisa de garfo afiado: desfia-se só, cor de rosa, com gosto a erva que só nasce onde o ar corta. O queijo — esse sim — é que é conversa séria. Passa meses nas prateleiras de madeira a ganhar rugas como nós, e quando se abre está cremoso que nem papa de bebé. O requeijão nem vale a pena guardar: come-se logo, com uma colher de pau e açúcar que se derrete antes de tocar na boca.
Nos dias de festa — e há sempre um santo qualquer por festejar — as senhorias puxam do forno a lenha e o borrego vai lá dentro com batatas que ficam com a pele estaladiça e o interior que parece mousse. O arroz de carqueja é daqueles que se faz sem medidas: um punhado disto, um copinho daquilo, o sal “que baste” (traduzindo: vai-se provando até acertar).
Vinha, pedra e o resto
As videiras estão ali há tantos anos que algumas lembram cabos de vassoura retorcidos. Em Setembro, o cheiro a uva pisada é tão intenso que até os cães parecem embriagados. Nas adegas, o mosto faz aquele ronronar constante — parece gato satisfeito, mas é só o tempo a trabalhar.
O granito dos muros aquece ao sol da tarde e devolve o calor durante a noite, como aqueles tijolos de sala que a avó cobria com um xaile. Encostas a mão e sentes os líquenes alaranjados, as fendas onde a chuva escorreu antes de haver televisão. Não é preciso mais.
Para quem vem de fora
Não há hotéis de cadeia nem animadores de lazer. Há uma casa de turismo rural — só uma — onde quem entra sabe exactamente o que procura: silêncio com peso, caminhos sem placas, e uma mesa onde se serve o que a terra manda. O risco é zero, a dificuldade logística mínima, a recompensa desproporcional para quem sabe ficar quieto.
Beijós não se explica em brochuras. Habita-se — nem que seja apenas o tempo de um fim-de-semana em que o telemóvel descobre o que é estar sem rede e se aprende que o tempo também pode ser medido em cachos de uva e em fatias de queijo que acabam antes de a foto ir para o Instagram.