Artigo completo sobre Parada: entre o vale do Alvoco e a Serra da Estrela
Freguesia de Carregal do Sal onde o rio, os lagares antigos e a chanfana contam séculos de história
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O cheiro a lenha queimada sobe do vale do Alvoco numa manhã de outubro, misturado ao aroma terroso dos castanheiros que já largaram as primeiras ouriças. No adro da igreja, um cruzeiro de granito projecta sombra curta sobre a calçada irregular, enquanto ao longe a Serra da Estrela desenha um perfil azulado contra o céu. Parada acorda devagar, ao ritmo dos 744 habitantes que conhecem cada curva do caminho, cada poço do rio, cada brasão lavrado nas casas senhoriais do Largo da Igreja.
Onde os caminhos pediam refeição
O nome da freguesia guarda memória medieval: «parada» designava o local onde os senhores exigiam o foro de parada — a refeição obrigatória a quem passava. Consolidada a partir do século XVI como ponto de apoio entre Viseu e a Serra da Estrela, Parada mantém essa função de descanso, agora voluntário. A Igreja Matriz, reconstruída em 1727 após o terramoto de 1755 ter danificado a torre, ergue-se em traços rurais barrocos. O retábulo maneirista e a talha dourada do altar-mor, atribuída ao talhador seiscentista José de Almeida, captam a luz que entra pelas janelas altas. No primeiro domingo de outubro, a procissão em honra de Nossa Senhora do Rosário percorre as ruas estreitas, seguida pela feira de produtos locais onde o requeijão Serra da Estrela DOP se vende ainda morno, acompanhado de doce de abóbora.
O vale que move moinhos
O Rio Alvoco banha a freguesia a sul, criando levadas e poços de água fria que nos dias de calor atraem crianças e cães. O «Caminho do Alvoco» estende-se por quatro quilómetros entre muros de xisto e olivais, ligando Parada à Póvoa das Forcadas — topónimo que recorda as forcas medievais que assinalavam o termo da jurisdição. Nos arredores deste lugar, os antigos lagares movediços ainda se vêem: estruturas montadas sobre troncos de castanheiro que permitiam deslocar a prensa para seguir a vindima de vinha em vinha. Hoje, apenas a madeira gretada pelo tempo testemunha a engenhosidade agrícola. O moinho de Álvaro Cardoso, junto à ponte românica reconstruída em 1932, mói ainda trigo nos mesmos silos de xisto do século XIX.
Fumo, barrica e forno de lenha
A chanfana de bode coze em panela de barro durante horas, o vinho tinto do Dão reduzindo até impregnar a carne. Nas chaminés largas das casas mais antigas, os enchidos de sangue — morcela e farinheira — pendem do fumeiro, ganhando cor escura e sabor concentrado. O borrego Serra da Estrela DOP assa em forno de lenha, a pele estala, a gordura escorre sobre o tabuleiro de ferro. O queijo Serra da Estrela DOP cura em barrica de nogueira, adquirindo textura amanteigada e travo intenso — a família Silva, na Rua do Poço, mantém esta tradição há quatro gerações. À mesa, broas de milho ainda quentes acompanham o mel de urze, colhido nos soutos que cobrem os 1 166 hectares de território ondulado.
Vindima e batuque comunitário
Setembro traz a vindima às vinhas enxertadas em xisto, e Parada mantém a prática da colheita comunitária. Em novembro, o batuque do milho reúne vizinhos no largo, os grãos separados à mão enquanto circulam histórias e garrafões de vinho branco. A noite de 5 para 6 de janeiro, o cantar dos reis percorre as ruas, vozes graves pedindo bênção e pão — o grupo liderado por Manuel Costa, com 82 anos, canta os mesmos versos que aprendeu com o avô. Nos domingos de quaresma, o folar parte-se e reparte-se entre famílias, massa doce com ovos cozidos que anuncia a Páscoa. A escola do primeiro ciclo, aberta desde 1942 num edifício projectado pelo arquitecto municipal António Ferreira, resiste à baixa densidade populacional — 63,81 habitantes por quilómetro quadrado, a menor do concelho — e às manhãs de Inverno em que o nevoeiro do Alvoco cobre tudo.
Ao cair da tarde, o sol rasante incendeia o granito das casas senhoriais, e o sino da igreja — fundido em 1892 na fundição de Viseu — solta três badaladas lentas que ecoam pelo vale. Fica o cheiro a castanha assada e o murmúrio constante do rio, esse som que em Parada nunca pára.