Artigo completo sobre Gosende: aldeia de granito a 994 metros de altitude
Conheça Gosende, freguesia de Castro Daire a 994 metros de altitude, com igreja matriz barroca, gastronomia serrana e tradições que resistem ao tempo.
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O adro da igreja matriz está vazio às dez da manhã. Só o vento atravessa o largo de terra batida, levantando folhas secas de castanheiro contra o granito do cruzeiro de 1753. Lá em baixo, no vale, o Paiva corre invisível entre as encostas, mas o seu rumor sobe pela serra quando o silêncio aperta. Gosende não se anuncia — revela-se devagar, casa a casa, muro a muro, entre os 994 metros de altitude que a separam do resto do mundo.
O peso da pedra e do tempo
A Igreja Matriz ergue-se modesta no centro da aldeia, traça simples que guarda no altar-mor a talha barroca restaurada em 1994. É Imóvel de Interesse Público desde 1978, o único monumento classificado desta freguesia de 368 habitantes dispersos por 2.045 hectares de montanha. Ao redor, as capelas de São Sebastião (na ladeira das Escouras) e São Roque (no caminho da Carvalhosa) pontuam as veredas de terra batida, usadas nas procissões que ainda juntam as famílias no domingo de São Sebastião (20 de janeiro) e na romaria de São Roque (16 de agosto) — datas que trazem fogueiras no adro, magusto com castanhas do souto da Bica, e o rancho de Gosende que repete os mesmos passos desde 1987.
O nome vem de longe: Gosende, ou Gossende nas "Inquirições de 1220", derivado do antropónimo germânico "Goswin". O "Livro das Benfeitorias" de 1758 confirma o "monte alto" delimitado pela Carvalhosa e Alhões, território de pastoreio transumante entre a serra da Gralheira e a planície de Viseu. A ocupação consolidou-se com a carta de foral de 1514, mas manteve-se sempre dispersa, fiel à lógica do espígão e do chão de xisto.
Forno de lenha e vinho do Dão
Na cozinha de Alice Cerdeira, o cabrito da Gralheira assa lentamente no forno de pedra onde o pai queimava o pão. A pele estaladiça serve-se com arroz de fígado e a vitela de Lafões guisa com batata e enchidos de sangue, fumados na chaminé desde novembro. A serra fornece o mel de giesta que o Zé Manel vende no Mercado de São Pedro do Sul, castanhas que a dona Alda transforma em bolos de tacho, medronho destilado no alambique do Cepês que marca 44 graus. À mesa, o branco do Dão da Quinta da Gralheira — casta Encruzado — acompanha o ritmo lento das refeições onde ninguém se levanta antes das quatro.
Entre giestas e lajes de rio
O Montemuro desenha o horizonte com encostas onde a giesta florida em maio serve para fazer escovas de banho. O Paiva corta o extremo sudoeste da freguesia, criando lajes de granito onde as mulheres batiam a roupa até 1974 — o lugar chama-se Poio da Nora, a dez minutos da estrada municipal 356. O troço do Caminho de Torres que atravessa Gosende tem 8,3 km, passa pela capela de São Sebastião e desce ao Conguedo onde a Câmara de Castro Daire instalou passadiços em 2019. Os trilhos sinalizados pedem subidas de 300 metros de desnível, recompensam ao entardecer no miradouro da Pedra Posta, onde se vê o vale do Bestança e a antiga ponte romana de Travanca.
Gosende não tem romaria registada nos anais da diocese, feira anual, procissão que atraia multidões. Tem 27 jovens (segundo os Censos 2021) e 134 idosos com mais de 65 anos, densidade de 18 habitantes por quilómetro quadrado, cinco alojamentos registados no Airbnb (três na rua do Adro, dois na ladeira das Escouras). Tem o frio húmido da manhã agarrado à pedra, o cheiro a lenha que sobe das chaminés, o eco dos passos no adro vazio. E tem o silêncio da serra — denso, físico, que pesa nos ouvidos até se ouvir o Paiva lá em baixo, correndo entre rochas que o pai do Zé Manel contava uma a uma.