Artigo completo sobre Mezio e Moura Morta: Vida a 885 Metros na Serra
Aldeias de xisto e granito no topo de Montemuro, onde 532 habitantes resistem à altitude
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A estrada sobe em ziguezagues, o asfalto fica para trás quando o xisto começa a ranger debaixo dos pneus. A 885 metros, o ar corta de forma diferente — traz o cheiro do pinheiro queimado e da terra virada para a batata. Mezio e Moura Morta não estão "no topo" de nada: estão é agarradas à serra de Montemuro como quem se agarra a um penhasco, com as aldeias espalhadas pelos contrafortes como se tivessem rolado lá abaixo.
São 532 almas que cabem todas no café do Crispim à sexta-feira à noite. Aqui, a densidade populacional mede-se em conhecimento: o Zé da Cova sabe exactamente quem anda na estrada só pelo som do motor; a Amélia da Lixa reconhece o miado do gato dos vizinhos como se fosse voz de gente.
Pedra, Altitude e Peregrinação
O Caminho de Torres passa aqui há séculos, mas ninguém lhe chama assim. É "o caminho de cima" — usado por quem vai para a feira de Castro com os burros carregados de fardos de lenha, ou por peregrinos que se perdem e batem à porta a pedir água. Ainda hoje, quando o nevoeiro desce, é fácil seguir pela direita em vez da esquerda e acabar em Moura Morta quando se queria ir para Mezio.
O granito não é "dominante" — é o que restou quando tudo o resto se foi embora. As casas construíram-se com o que a serra deu: pedra que corta os dedos, lajes que pesam uma tonelada, xisto que estala no Inverno. O fumeiro não é "elemento de resposta" — é onde o António do Souto pendura o toucinho que matou no dia de São Martinho, junto com as alheiras que a mulher fez enquanto ele bebericava um bagaço.
Sabores de Altitude
O cabrito não "pasta nos lameiros" — está preso ao cioiro do Joaquim, a comer serapilheira e restos de pão-duro. O sabor distinto vem do que ele não come: rações, vacinas, pressa. A vitela de Lafões é mesmo daqui — cria-se nos currais de madeira onde o gado se abriga quando a neve cai.
Nos fumeiros, o presunto cura ao ritmo dos meses. O porco matado em Janeiro está pronto quando as primeiras cigarras começam — e não há receita escrita porque quem precisa de receita para salgar carne aprendeu com a avó antes de saber ler.
O vinho do Dão chega em garrafões de cinco litros, trazidos pelo Zé do camião de Águeda. Na adeira da Dona Lúcia, o vinho novo ainda faz bolhas quando se abre o pote — e o copo é um copo, não taça de prova.
Morar na Vertical
As casas recuperadas são as mesmas onde o avó do Manel nasceu — agora têm aquecimento central, mas mantêm o buraco na porta onde entrava o gato. Não há hotéis porque ninguém aqui percebe de hospitalidade — percebe é de deixar a casa como se fosse própria, com a lenha empilhada e o bolo no forno.
A estrada para Mezio tem um sítio onde dois carros não passam — é ali que se aprende a dar marcha-atrás em ladeira, com o precipício à direita e ainda se vai dando um "bom dia" ao pastor que desce com o rebanho. O silêncio nãocturno é mesmo silêncio — até se ouve o relógio de parede na casa ao lado.
Quando o sol se põe atrás do Marco de Mira, as sombras sobem dos vales como água a subir. É então que as lareiras se acendem, uma a uma, e o fumo sobe direito porque não há vento que se atreva a virar esquina na serra. Mezio e Moura Morta não são "destino" — são lugar. E lugar é aquilo que fica quando todos os que partiram ainda sentem falta do cheiro da terra molhada.