Artigo completo sobre Mões: onde o linho ainda se tece em teares centenários
Freguesia de Castro Daire preserva tradição têxtil viva e memória das tecedeiras de Montemuro
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O estalido da lançadeira corta o silêncio da tarde como quem abre uma cerveja no café. No atelier de Várzea de Calde, o tear funciona com a mesma cadência de sempre - não é espetáculo para turista, é oficina que ainda produz. Aqui, a 690 metros de altitude, Mões mantém viva uma coisa que ninguém faz mais: o ciclo completo do linho, da semente ao pano. São 1691 habitantes, mas bastava um para continuar a tecer.
Aldeia das tecedeiras
Até aos anos 60, diziam "vai às Mões comprar pano" como hoje se diz "vai ao continente". Mais de 120 teares nas casas - cada uma com a sua toalha de linho, cada toalha com o seu ponto de cruz inicial. As mulheres teciam o dote das filhas, trocavam lençóis por galinhas, e o linho branco ia para Viseu embrulhado em pano de algodão. O nome vem do galaico antigo - "casa de madeira" - mas o que marca não é a madeira: é o fio que ainda corre no único tear que resta a trabalhar regularmente.
A Igreja de São Tiago está onde sempre esteve - no meio da aldeia, como faz sentido. Talha barroca, retábulo dourado, e em Julho a romaria que junta toda a gente. O leilão depois da missa é coisa séria: o pão mais bonito vai para quem licita mais, o vinho fica para os que sabem apreciar. Não é folclore - é o que restou das festas de antigamente, quando se leiloava para pagar o telhado da igreja.
Montanha suave, águas cristalinas
O Bestança nasce ali ao lado, entre pinheiros e castanheiros que já cá estavam quando os romanos passaram. O Trilho dos Moinhos é um passeio de seis quilómetros - desce da igreja, passa pelas ruínas dos moinhos onde os avós moíam o milho, e chega ao rio onde se pode molhar os pés sem pagar entrada. A Ponte de Vilar tem um arco só, mas aguenta camiões há séculos. No Verão, as poças naturais servem de piscina - água fria que desfaz bebedeiras da noite anterior.
Cabrito, vitela e vinho Dão
O ensopado de cabrito não é invenção para restaurante - é o que se fazia quando o bicho morria. A chanfana leva vinho tinto do Dão, colorau, alho, e vai ao forno de lenha enquanto se bebe um copo. O bolo de linho é a prova de que não se deita nada fora: as sementes que não serviam para tecer, serviam para comer. Os serões de inverno ainda acontecem - começam com histórias dos avós e acabam com beijinhos de noiva que a avã faz de olhos fechados. O vinho é do Dão, claro - não é preciso ir longe para beber bem.
Há um som que só se ouve aqui: o bater da lançadeira, seco e repetido, como um relógio de parede que nunca para. Quem o ouve percebe que Mões não é museu - é uma oficina onde o tempo passa diferente, onde o pano ainda nasce entre as mãos de quem sabe que o linho não se improvisa.