Artigo completo sobre Monteiras: 880 metros de altitude e silêncio de pedra
Onde o granito aflora, os rebanhos pastam e o Caminho de Torres atravessa a serra de Castro Daire
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O granito aparece sem aviso, cru e quente ao toque mesmo quando o ar já mói os dedos. Às vezes é um lobo ruivo que se deita ao sol, outras é só costela da serra a mostrar-se. O vento sobe o desfiladeiro do Bestança, bate na porta da pensão e entra pela fresta — cheira a resina queimada e a cabra molhada. São 880 metros, mas soem mais quando se sobe a ladeira da Igreja com a mochila às costas e o coração aos trambolhões.
Terra de Altitude e Pastoreio
Dizem que é região do Dão, mas aqui o vinho bebe-se em casa de quem o faz, num copo de farmácia, com tremoços e conversa sobre o preço da leite. O que importa são os pastos: nabal, tojo, uva-de-urso — ervas que os velhos ainda sabem nomear. O cabrito nasce de abril, mama o leite da mãe e cheira a alecrim até ao dia da malhada. Nas chaminés, a chouriça fica três semanas a fumar; quando se corta, a faca ainda está quente do forno onde há pouco saíram os pães redondos de trigo de Cabanas. O cheiro não se descreve — agarra-se ao cabelo, à roupa, à memória.
No Caminho de Torres
A seta é uma pedra pintada de amarelo que o tempo descascou. O troço entre Monteiras e Vila Moinhos sobe durante três quilómetros em terra solta; depois desce igual, mas agora o joelho é que fala. Quem passa aqui não leva selo, leva é uma maçã oferecida pela D. Amélia e um copo de água da bica da Fonte da Pipa. Não há lojas, nem máquinas — há o silêncio que sobra quando o rebanho se afasta.
Das 404 pessoas, 38 estão na casa de repouso e 4 na escola primária que abre só quando há professor. Nas tardes de domingo, o café do Cláudio enche-se para ver o jogo: uma garrafa de branco, um prato de enchidos e o Benfica aos gritos. As casas de xisto que estão escuras não estão abandonadas — são chamines que só acendem na volta da colheita da castanha.
Onde a Serra se Fecha
Não há miradouro com selfie point; há é o curral da Carrasca onde o céu parece tampa de ferro fundido. Quando o nevoeiro desce, o cão do Sr. Joaquim ladra para o mesmo vazio que os avós já temiam. A única sombra de alojamento chama-se “Casa da Cica” — dois quartos, lençóis de flanela e um gato chamado Minhoca que decide quem entra.
Leva-se na pele o arroio que corre debaixo da estrada, o ranger da porta do celeiro que ninguém abre há anos, o sabor a medronho queimado que fica na boca depois da última curva. Monteiras não marca no mapa — marca nos ossos.