Artigo completo sobre Picão e Ermida: Vida a 900 Metros na Serra de Montemuro
415 habitantes, pastos de altitude e caminhos antigos na união de freguesias de Castro Daire
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O nevoeiro cola-se aos sobreiros e às urzes como quem lambe feridas. A 900 metros, o ar nem sempre é fino - às vezes é pesado, carregado de poeira de sabão quando o vento vira e traz o cheiro das lavagens da fábrica para lá do monte. Mas de manhã cedo, sim, há aquele aroma a terra molhada que te faz lembrar os pés descalços na horta da avó. O silêncio não é completo - há um ruido constante, quase imperceptível, da água que corre nos canos de abastecimento que a Junta mandou pôr há uns anos.
São 415 pessoas, mas na prática são menos. Pelo menos três dezenas só cá vêm aos fins-de-semana e férias. Dos 27 crianças que o INE conta, há pelo menos 4 que na verdade vivem em Lisboa - cá só vêm passar as férias grandes, quando a avó vai ao Entroncamento buscá-los à estação.
Altitude e Sabor
A altitude explica porque é que aqui o leite é mais espesso - as vacas pastam erva que cresce lenta, e isso nota-se no queijo. O Cabrito da Gralheira não é propriamente de cá - é da freguesia ao lado, mas há quem cá o crie da mesma maneira. O que há mesmo é porco preto que se cria solto nos castanhais, e chouriços que se fumam na chaminé durante três meses. Acontece que o turista que vem cá parar não é o mesmo que vai para o Douro - vem mais perdido, mais disposto para comer o que aparecer.
As casas de turismo rural são duas, não três. Uma é da Dona Amélia, que era empregada de escritório em Paris e voltou há dez anos. A outra é do filho do Tonho, que comprou casa do canto e pintou de branco. Ambas têm reservas pelo booking, mas quase sempre meia dúzia de portugueses que "quere descansar do stress".
No Caminho de Torres
O Caminho de Torres passa cá, sim senhor. Mas os peregrinos que por aqui vêm são os que se perderam de propósito - os que querem evitar a confusão do Central. Há marcas amarelas e setas que o Zé Mário pintou com lata de spray, mas algumas já estão apagadas. O que há mesmo é um trilho que o Clube de Montanhismo de Viseu abriu há uns anos - vai dar à Fragas de S. Simão, e tem vistas que fazem esquecer a Lomba.
O centeio ainda se planta - não muito, só o suficiente para fazer broa para a casa. O que já quase desapareceu foi o linho, que a avó de muita gente aqui fiava. Ainda há uma senhora, a Dona Elvira do Picão, que tem o tear na cave e faz toalhas que vende a 40 euros - mas só para quem aprecia.
O granito é o que é - duro, escuro, com manchas brancas de oxidação. O xisto é mais traquina, descasca-se em lâminas que as crianças usam como pratos para brincar. Quando o sol se põe atrás do Montemuro, primeiro fica tudo cor de mel, depois azul-acinzentado, e depois escuro de vez. É nessa altura que os vizinhos ligam as luzes dos pátios - e de repente parece que estás num teatro, com cada casa uma cena iluminada: aqui alguem a jantar, ali uma televisão azul a piscar, acolá uma criança a lavar os dentes à janela.