Artigo completo sobre São Joaninho: bombos, cajados e romaria na serra
Tradição viva dos bordões de São João a 714 metros de altitude na serra de Castro Daire
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O som dos bombos chega antes de se ver a procissão — um ritmo grave que reverbera nas encostas de xisto e se mistura ao canto dos melros nos soutos. É domingo de São João em São Joaninho, e o adro da igreja matriz enche-se de gente que caminha devagar, segurando cajados de nogueira entalhada à mão. O fumo da fogueira sobe direito no ar parado da serra, levando consigo o cheiro a lenha de carvalho e a carne assada que já estaleja nas grelhas do arraial. Aos 714 metros de altitude, a luz da tarde de Junho desmaterializa o vale da Ribeira, deixando apenas contornos suaves de verde e cinza até ao planalto de Castro Daire.
O bordão que marca o lugar
Aqui, no único ponto do concelho onde ainda se fabrica o cajado de São João, a romaria do padroeiro não é espectáculo — é trabalho de mãos. Os pastores trocam os bordões no adro, examinam o peso da madeira, testam a curvatura. A tradição vem de longe: o primeiro foral remonta a 1185, quando D. Afonso Henriques doou São Joaninho à Ordem do Templo, integrando-o no termo de Lafões. A igreja matriz, reconstruída em 1568 sobre matriz medieval, guarda no seu interior um retábulo barroco dourado de 1743 que contrasta com a austeridade do granito exterior. No adro, o cruzeiro de 1743 marca a passagem do tempo com a precisão de quem nunca teve pressa — a data lê-se ainda na base erosionada.
Caminhos que se sobrepõem
A concha amarela e a seta azul do Caminho de Torres aparecem pintadas nas ombreiras de pedra ao longo do PR4 "Caminhos de São Joaninho" — oito quilómetros circulares que ligam o casal à Capela de Nossa Senhora da Conceição (reconstruída em 1892 após o incêndio), ao moinho de água recuperado em 2004 e à ponte de arco único sobre a ribeira, datada de 1873. Pela manhã, quando o nevoeiro ainda se agarra aos carvalhais, os passos ecoam na calçada irregular e o frio húmido da altitude obriga a cerrar o casaco. No miradouro natural junto à igreja, a vista abre-se sobre o vale do Vouga e deixa perceber a geografia ondulada da Serra de São Macário — estevas, medronheiros, giestas no sub-bosque onde a toutinegra canta escondida.
Panela de barro e vinho do Dão
A chanfana de bode à moda de Lafões coze devagar em panela de barro, com vinho do Dão produzido nas quintas da freguesia — a Adega da Levada produz apenas 3.000 garrafas anuais de tinta. Os rojões à São Joaninho levam infusão de colorau e alho, e servem-se fumegantes ao lado da sopa de feijão manteiga com couve e chouriço de vila. No café "O Parque", a broa de milho ainda quente acompanha fatias de queijo da serra feito pelo Sr. António desde 1978. Em Dezembro, os bolinhos de aniz e o doce de abóbora-amarela com canela marcam a quermesse da Senhora da Conceição; na noite de 5 para 6 de Janeiro, o Cantar dos Reis vai de casa em casa, deixando no ar melodias que os 348 habitantes conhecem de cor — a mais antiga, "Ó que linda manjareira", passada de avó para neto desde pelo menos 1902.
O Entrudo enterra-se na véspera da Quarta-feira de Cinzas com caretos de lã e cascões, mas é nos domingos comuns, depois da missa das 11h, que a vida da freguesia se revela sem disfarce: no jogo da malha nos largos, no presunto caseiro que cura pendurado nas eiras de junho a fevereiro, no silêncio denso da tarde quando só se ouve o murmúrio da ribeira e o vento que dobra as giestas. A nogueira do cajado cresce devagar no vale — leva 7-8 anos até ter a curvatura certa, e ninguém aqui força o que precisa de tempo para ganhar forma.