Artigo completo sobre Ferreiros de Tendais: onde o ferro forjado moldou a serra
Moinhos de água, forjas centenárias e vinhas protegidas por muros de xisto a 773 metros de altitude
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O martelo ressoa na bigorna antes do amanhecer. O som metálico sobe a encosta e abana as janelas de xisto como quem bate à porta de casa. Ferreiros de Tendais acorda ao ritmo que lhe deu nome — e ao contrário do que pensam os de fora, não é lenda: até 1983 o António Monteiro, o «Ferreiro», batia ferro aqui mesmo, na esquina da rua da Igreja, e vendia portões a peso de ouro para todo o concelho. Hoje o Martírio (assim se chama o lugar onde ele punha a bigorna) está tapado de silvas, mas o nome fica a lembrar que isto já foi sítio onde se fazia coisa séria.
A freguesia está a 773 metros, o que quer dizer que em Janeiro o ar corta a cara e em Agosto ainda se dorme bem. A Ribeira de Ferreiros desce de malas e bagagens, levando água aos moinhos que restam — só um é que está de pé e ainda mói milho quando há visitas guiadas. O tal «Caminho dos Moinhos» é um passeio de quem não tem pressa: seis quilómetros a pala de sol, com paragens obrigatórias para tirar o casaco e para beber água da levada. Leve sandes, que não há café no meio do caminho.
O ferro e a fé
A igreja matriz de São João Baptista é branca como se a cal fosse barata. Lá dentro, o retábulo dourado foi restauro do Padre Joaquim Augusto Pinto, homem que marcou serviço durante quarenta e dois anos e ainda hoje é lembrado nas tertúlias do «Bar do Crispim» como quem fez mais pela aldeia que muita Câmara. No adro, o cruzeiro de granito serve de mureta para os velhos verem passar o tempo — e para marcar o início das procissões que ainda descem a rua Direita três vezes por ano.
A Romaria de São Pedro, no último domingo de Junho, é o dia em que a aldeia enche de carros estacionados em segunda fila e de gente que «só vem porque é tradição». A capela do santo fica lá acima, depois de um lance de terra batida que deixa falta de ar a quem leva sapatos de salto. Mas a conversa é outra: a Romaria do Senhor dos Enfermos, na primeira segunda-feira de Setembro, lembra quando a febre tifóide levou catorze pessoas num estalar de dedos. Contam que as tábuas do altar vierem de barcos encalhados no Douro — madeira que já conhecia a miséria da água antes de provar o incenso.
Carne, vinho e fogueiras
Quer provar a Carne Arouquesa sem pagar preço de turista? Espere pela festa da aldeia, grelham-no na praça e serve-se em prato de barro com batata ao murro que queima os dedos. Os rojões à moda de Ferreiros são os mesmos de sempre: toucinho fumado, colorau que mancha o prato e um golão de vinho branco para desenjoar. À sobremesa, há bolo de milho que a Dona Alda faz no forno de lenha — leve manteiga caseira se conseguir, que ela vende às escondidas para não fazer inveja.
O vinho é Loureiro da sub-região do Sousa: leve, desfaz-se no copo e desce que nem água. Em Novembro, quando o medronho está maduro, ainda se destila aguardente nos alambiques que o pessoal guarda na cave. Peça com moderação: uma dose serve para aquecer a noite inteira.
A paisagem forjada
Dos 540 habitantes, metade já tem idade para pensão e a outra metade saiu «para a cidade ganhar a vida». Sobraram os campos de vinha em socalcos, os muros de xisto que os velhos reparam de vez em quando, e o mato que cresce onde antes havia centeio. Ao fim da tarde, quando o sol se põe atrás da serra e o sino bate as seis, o fumo das lareiras sobe fino como arreliado que se vai embora. É o sinal de que o dia acabou — e de que amanhã o martelo já não volta a soar.