Artigo completo sobre Nespereira: onde o granito e o mel marcam o tempo
Aldeia serrana a 555 metros de altitude preserva memória rural viva entre carvalhos e pastagens
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O sino da igreja é das poucas coisas que ainda não mudou. Treme no ar como sempre, mas agora o eco volta mais depressa – os carvalhos já não são tantos e o vale não é tão fundo quanto era. Em dia de nevoeiro, Nespereira parece aquele retrato antigo da avó: desfocado, a meio da encosta, com as casas de granito a boiarem no branco como barcos que se esqueceram de partir. O cheiro é o mesmo de sempre: lenha de carvalho a arder e mel que escorre das colmeias que ainda sobrevivem nos lameiros. Quem não conhece, pensa que é perfume de candeeiro. Quem conhece, sabe que é o cheiro do tempo a passar.
A aldeia está a 555 metros, o que quer dizer que o inverno chega antes e fica mais tempo. Dizem que o nome vem das nespereiras – e pode ser, mas hoje só há três na aldeia inteira, duas delas no quintal do Sr. Albano, que já não come nêsperas por causa do açúcar. São 1695 pessoas, mas conta-se pelos dedos quem ainda sabe fazer um cabo de enxada sem pedir ajuda ao YouTube.
O peso do granito e da memória
O Museu Etnográfico não é museu como os da cidade. É antes um canto do campo que se esqueceu de morrer. Lá estão o jugo do Zé do Carmo – ainda tem a marca do pescoço do boi "Manso" que morreu em 1987 – e a foice da Dona Aurora, que ceifava trigo antes de ir para a guerra de África e voltou com a mesma foice e menos um dedo. A capela do Senhor dos Enfermos ainda recebe quem sobe a pé da aldeia abaixo, mas agora são mais as motas que as promessas. A fé continua, mas é discreta: acende-se um círio, faz-se-se o sinal da cruz e vai-se para casa jantar. Deus não precisa de espectáculo, precisa de companhia.
Carne, mel e fogo lento
Na cozinha, o fogo é de carvalho ou não é nada. A Carne Arouquesa não é "DOP" para quem cá vive – é só "a vaca do Sr. Joaquim", que pastou nooutro lado da estrada e soube sempre a erva de altitude. Os rojões levam o tempo que levam: de manhã para a aldeia inteira comer à hora de domingo. O mel é escuro, quase negro, e tem gosto a urze e a dias sem sol. Quem vem de fora acha "intenso"; quem cá nasceu chama-lhe "mel normal". O bacalhau vai ao forno de lenha do clube, com batatas às rodelas e azeite que a filha do Zé trouxe de Oliveira. Não há receita escrita: há é o olhar da D. Lurdes a dizer "agora chega".
Trilhos entre o carvalho e o céu
O caminho para a Senhora do Castelo é o mesmo de sempre: sobe, sobe e depois sobe mais. No cimo, o miradouro novo é só uma placa de metal frio, mas a vista continua de borla. Vê-se o Bestança, vê-se o Douro ao fundo e, se o dia estiver limpo, vê-se a pensão que ainda não pagaste. Os ribeiros correm depressa, porque têm pressa de ser rio. O Grupo Folclórico ensaia no adro da igreja: o acordeão é o mesmo de 1978, mas agora tem microfone. Os melros não gostam, mas habituam-se.
Quando a noite cai, o granito fica frio como testemunha. O silêncio é tão grosso que se ouve a lenha a arder na casa do vizinho. Sobe pela chaminé, entra pela janela e fica nas roupas como quem diz: "Lembras-te de onde vieste." E, na verdade, é isso que Nespereira faz: não te pede para voltar, mas deixa-te levar o cheiro na roupa. E quando, longe, sentes o fumo de carvalho, é a aldeia a dizer que ainda cá está – teimosa, como quem não quer saber do tempo nem do resto do mundo.