Artigo completo sobre Santiago de Piães: barroco e castros entre Montemuro
Santiago de Piães, em Cinfães, preserva igreja barroca, castro de S. Fins e arquitectura rural nobre entre o vale do Bestança e a serra de Montemuro.
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O eco dos passos na calçada de granito mistura-se com o som distante de água corrente. Aqui, no adro da Igreja de Santiago, o sol da manhã aquece a pedra enquanto o cheiro a lenha queimada sobe das casas mais abaixo. Santiago de Piães ergue-se a 341 metros de altitude, entre o vale do Bestança e as encostas da serra de Montemuro, num território de 1759 hectares onde os socalcos de vinha e milho desenham a geometria do quotidiano. Os muros de xisto dividem lameiros, os carvalhais cobrem as cumeadas, e o rio — sempre o rio — corre ao sul, movendo ainda algumas levadas e moinhos que resistem ao abandono.
O barroco que reluz no interior da pedra
A Igreja Matriz, dedicada a Santiago Maior, guarda no seu interior um retábulo dourado que contrasta com a sobriedade exterior. As imagens setecentistas, talhadas em madeira policromada, captam a luz que entra pelas janelas laterais. É um barroco de província, sem pompa excessiva, mas com a firmeza de quem conhece o peso da fé e do trabalho. Nas quintas senhoriais espalhadas pela freguesia — Quinta da Lameira, Quinta do Moura — a arquitectura rural nobre revela-se em capelas privativas, portais de granito e alpendres onde o tempo deixou manchas de humidade e musgo. Segundo o inventário de 1985, cinco casas apalaçadas subsistem, testemunhos de uma hierarquia social que o século XX esmoreceu mas não apagou.
A Citânia que vigia o vale
Mais acima, no alto de S. Fins, o castro proto-histórico abre-se à visitação livre. A Citânia de S. Fins é um dos raros vestígios castrejos do concelho acessível sem portões nem horários. Os muros circulares, semi-enterrados, mal se distinguem da vegetação rasteira, mas a vista sobre o vale do Bestança recompensa a subida. O Trilho da Citânia, três quilómetros circulares que partem da igreja matriz, sobe por caminhos de terra batida onde o silêncio só é interrompido pelo vento nos pinheiros e pelo ocasional ladrar de um cão ao longe. Aqui habitaram povos que desconheciam o nome de Santiago, mas conheciam bem a dureza do granito e a generosidade do vale.
Vinho leve, carne firme e mel das alturas
Santiago de Piães integra a Rota dos Vinhos Verdes, produzindo brancos leves e gasosos da sub-região de Sousa. São vinhos que pedem um copo alto e uma tarde fresca — o tipo de coisa que se bebe à sombra depois de um almoço de domingo. Nas mesas locais, a Carne Arouquesa DOP — vitela e novilho de raça autóctone — transforma-se em chanfana, guisada em vinho tinto com toucinho e enchidos, ou em rojões à moda do Minho. O Mel das Terras Altas do Minho DOP, outro produto certificado, adoça o pão-de-ló de Margaride e as queijadas de Santiago, doçaria que aparece nas romarias de Verão. O bacalhau, assado em forno de lenha, é aquele prato que faz as vizinhanças inteiras cheirar a festa.
Procissões, fogueiras e desafios ao vira
A Festa de São João, a 24 de Junho, acende fogueiras no adro e leva a procissão pelas ruas principais. A Romaria de S. Pedro, no último domingo de Junho, percorre os campos até à capela dedicada ao santo pescador. Em Setembro, a Romaria do Senhor dos Enfermos traz um tom mais recolhido, de solidariedade e prece. Nos três festejos, os ranchos folclóricos executam vira e chula, cantigas ao desafio onde a irreverência convive com a tradição. Serve-se caldo de nabos, sardinha assada, aguardente de medronho. A população — 1607 habitantes, diz o recenseamento — concentra-se nestes dias. É quando se vê gente que não se via desde o ano passado, e os netos que estiveram no Porto voltam a comer sopa da mesma panela da avó.
Espigueiros que ainda guardam milho
Espalhados pela freguesia, os espigueiros de granito — alguns com mais de duzentos anos — permanecem em uso. As ripas horizontais deixam o ar circular, protegendo o milho da humidade enquanto o afastam dos roedores. É arquitectura funcional, despida de ornamento, mas com uma beleza que nasce da necessidade. Nos caminhos entre aldeias, cruzeiros de pedra marcam encruzilhadas, e os moinhos, mesmo os parados, conservam a roda de madeira gretada pelo tempo e pela água.
O cheiro a terra molhada depois da chuva mistura-se com o fumo dos fumeiros onde a chouriça cura devagar. Santiago de Piães não precisa de pressa — a vinha cresce no seu ritmo, o rio corre sem interrupção, e o granito dos espigueiros continua a cumprir, grão a grão, a tarefa para que foi talhado há dois séculos.