Artigo completo sobre Souselo: três romarias e um rio entre vales de fé
Junto ao rio homónimo, esta freguesia de Cinfães celebra São João, São Pedro e o Senhor dos Enfermos
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O som da água sobre pedra anuncia Souselo antes do próprio povoado. O rio homónimo, que nasce na serra de Cinfães e desagua no Douro a 7 km dali, corre estreito entre margens de carvalho e castanheiro, desenhando um vale onde ainda se cultivam milho e feijão em socalcos de xisto. A 261 metros de altitude, o ritmo marca-se pelo ciclo agrícola e pelo calendário religioso — três romarias anuais numa freguesia de 2839 habitantes (dados 2021) não são acaso, são identidade.
A fé talhada em pedra e cal
A Igreja Matriz, reconstruída em 1757 após o terramoto de Lisboa, ergue-se dedicada a São João Baptista. O retábulo barroco do altar-mor, talhado por José de Santo António Ferreira em 1762, esconde uma imagem do século XVI que sobreviveu às invasões francesas escondida num celeiro da Quinta do Pinheiro. A Capela de São Pedro, no lugar de Cidadelhe, guarda azulejos de 1642 que contam a vida do santo — os azuis já desbotaram, mas ainda se lê "S. PETRVS" nas cartelas. A Capela do Senhor dos Enfermos, construída em 1713 por iniciativa de Maria Luísa de Távora, tem uma porta lateral onde os peregrinos tocam três vezes antes de entrar — tradição que vem de quando os doentes de varíola eram deixados ali à noite.
Junto ao rio, a ponte de Souselo tem três arcos diferentes — o central é medieval (século XIV), os laterais foram acrescentados em 1867 após a cheia que levou as pontes de Foz e Oliveira do Douro. Nas margens, o Moinho do Penedo ainda tem as suas pedras de moer intactas; encerrou em 1982 quando António Cerqueira, o moleiro, morreu aos 87 anos sem deixar sucessores. O Moinho da Ribeira, mais acima, foi convertido em casa de férias mas mantém a rodagem de madeira que o pai do actual dono fabricou em 1946.
Três romarias, uma comunidade
No dia 24 de Junho, às 6h da manhã, o grupo dos "Maios" percorre Souselo com os bonecos de palha que passaram a noite na Capela de São Sebastião. Às 9h, a procissão sai da Igreja Matriz com a imagem de São João baptizada em água do rio — tradição que remonta a 1835, quando o cónego João Ferreira baptizou o santo para acabar com uma praga de gafanhotos. À tarde, há concurso de bolos de São João: o de Isabel Maria Gomes ganhou 14 das últimas 20 edições com a receita que leva casca de laranja amarga e um fio de aguardente velha.
A Romaria de São Pedro, 29 de Junho, começa com a bênção dos alhos na Capela de São Pedro — os agricultores trazem os molhos atados com taliscas de junco, rezam um pai-nosso e levam-nos para pendurar nas portas das casas. A Romaria do Senhor dos Enfermos, primeiro domingo de Setembro, atrai peregrinos de 18 freguesias: vêm a pé desde Resende (18 km), param na "fonte da saúde" para beber as três goladas que "curam males do fígado". Nas procissões, as mulheres de Souselo ainda levam as mantinhas de renda de bilro que as avós fizeram — cada família tem o seu padrão, passado de mãe para filha desde 1850.
Sabor com denominação de origem
A Carne Arouquesa DOP que se come em Souselo vem dos bois criados nas quintas da Moita e do Outeiro — são 18 meses de pastoreio nas matas de carvalho, depois 30 dias de engorda em celeiro com feno e cevada. O talho Miranda, na rua Dr. José Falcão, é quem guarda os carcaços com a chancela oval amarela: "Arouquesa - Carne de Boi". O ensopado de borrego leva o animal da Serra da Gralheira, abatido aos 4 meses; coze-se em tacho de barro durante 3 horas com louro do quintal e vinho branco da casta Arinto que o Sr. Albano produz na Quinta da Veiga.
O mel é do lugar de Pousade — os apiários de Carlos Alberto Silva, com 120 colmeias, produzem o mel de urze que ganhou prémio em 2019 na Feira de São Mateus. As cavacas de Souselo, finas e estaladiças, têm a receita publicada no "Jornal de Notícias" de 1954: 12 gemas por quilo de farinha, manteiga de cabra e um copo de aguardente de medronho que dá o sabor aveludado.
Caminhar entre bosque e cultivo
O trilho PR3 "Souselo - Rota do Rio" tem 8,3 km e demora 2h30. Começa na ponte medieval, sobe pelo caminho de Cidadelhe onde se veem os marcos de granito da antiga divisão de águas (1847), desce ao moinho do Penedo e segue pela levada que irrigava as hortas. No km 4, o carvalho de Pousade tem 12 metros de perímetro — dizem que D. Afonso Henriques terá aqui parado em 1139, antes da batalha de São Mamede, mas o que é certo é que as iniciais "AH 1832" estão esculpidas no tronco.
A ribeira de S. Sebastião, afluente do Souselo, tem nascente a 420 metros de altitude na serra de Cidadelhe. Aqui crescem fetos-águias, lírio-dos-bosques e, nas zonas mais húmidas, a raríssima estreleira-de-inverno — planta que só existe em mais três locais em Portugal. Os 309 habitantes/km² não dizem tudo: a freguesia tem 9,2 km², mas 68% é floresta autóctone, 21% é mato e apenas 11% é agricultura. Quando o sino toca ao meio-dia, ecoa pelo vale durante 11 segundos — foi o padre Joaquim Silva que mandou reparar o badalo em 1943, depois de ter sido roubado pelos franceses em 1811.