Artigo completo sobre Tendais: 591 metros de altitude e uma identidade resiliente
Descubra Tendais em Cinfães, Viseu: 697 habitantes, Carne Arouquesa DOP, Mel das Terras Altas e três romarias que mantêm viva a identidade da montanha.
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O granito escuro das paredes aquece ao sol da tarde como a chávena que o António deixa em cima do balcão do café. Ao longe, o sino da igreja tange — não é hora certa, é uma sugestão. Tendais fica a 591 metros, entre vales que se encaixam como ganchos de botas. São 697 habitantes, mas conta-se pelos dedos quem ainda cá dorme todo o ano. Três mil hectares para tão pouca gente: dá para perder a voz a chamar o cão e ele nem te ouve.
A marca do tempo na pedra
Está na região dos Vinhos Verdes, mas aqui a vinha é como o Benfica em Tendais: há quem goste, mas não manda. O terreno é tão ingreme que até as cabras escolhem o caminho. Sobraram pastagens — e daí vem a Carne Arouquesa que o sr. Domingos no Levada do Castelo grelha sobre carvalho, sem marinada nenhuma: «É só sal, pimenta e tempo.» O mel é outra história: é denso como o trânsito na N222, mas corta o travo ao chá melhor que qualquer bagaço.
Censo diz 52 jovens, 256 idosos. Os miúdos vão-se embora logo que aprendem a meter o pé na estrada. Ficam os velhos — e é deles que vem o mapa verdadeiro: sabem onde se perdeu a ponte de 1943, que ribeira tem enguias gordas e que pedra serve de mesa para fazer o presunto.
Três romarias, três calendários
São João, São Pedro e o Senhor dos Enfermos. Três sábados que marcam o ano melhor que o calendário da Câmara. Não há bilheteira, nem t-shirt. Há fogo de raxeira, sardinha que o pai do Zé manda vir de Ovar e cerveja que se bebe à pressão porque o gás acaba. Quem volta nestes dias não é turista — é primo que emigrou para França e traz os miúdos que ainda não sabem atirar ao sino.
Há três casas para dormir: a da Amélia, a do sr. Albano e uma que ninguém lhe sabe o dono, mas a chave está debaixo do pires. Nenhuma tem televisão. Tem rede móvel, mas só se fores da NOS e estiveres de costas para a serra. Perfeito.
O que fica
Cozinha-se o que se cria: porco, batata, couve, Maçã de Ermelo se o ano não foi mau. O prato forte é a arouquesa na brasa — peça de meio quilo que chega à mesa a soltar um fumo que te faz lacrimejar antes de provar. Come-se de faca, pão da véspera e vinho branco que o Zé Mário faz num lagar mais velho que a minha avó. Sobremesa é doce de abóbora ou cavacas que a D. Fernanda faz no forno do centro de dia; leva três dias, mas diz que «a pressa é dos que vêm de fora».
Quando o sol se põe atrás do Bornal, a serra vira uma tela azul-escura e o vale enche-se de cânticos de grilo. O que fica não é postal — é a certeza de que aqui o tempo ainda se conta à sombra, a estrada nacional ainda tem um café onde te lembram do nome e a montanha não pede likes, só respeito. Tendais não quer ser destino; quer ser o sitio onde guardas os sapatos de borracha e sabes que, se voltares, o sino toca na mesma hora errada.