Artigo completo sobre Ferreiros de Avões: onde a forja moldou o Douro
Freguesia lamecense entre socalcos, caminhos de Santiago e memórias de metalurgia ancestral
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O eco dos passos na calçada irregular ressoa entre casas de pedra e cal, enquanto o sino da Igreja de Santa Maria marca as horas. Ferreiros de Avões fica a exatos 3,2 km de Lamego, numa dobra de colinas onde os socalcos ainda sustentam vinha e pomar. A 591 metros de altitude, o ar traz o cheiro a terra lavrada e, quando o vento sopra do Douro, uma humidade que se agarra à pele. O silêncio só é interrompido pelo murmúrio da ribeira de Avões e pelo ladrar dos cães do Jaime, o único pastor que ainda sobe os caminhos de xisto.
Forja e fé
O nome não é acaso: em 1170, o foral de D. Afonso Henriques já mencionava «Ferreiros d’Avões», referindo-se aos homens que trabalhavam o ferro nos fornos da ribeira. A vila chegou a ter autonomia administrativa entre 1514 e 1836, quando foi anexada a Lamego. Na Igreja de Santa Maria, a pedra de Ançã do século XVI não é «escultura» qualquer: é o cruzeiro do altar-mor, trazido de carro de bois desde a pedreira de Ançã, perto de Coimbra, pago com 12.000 réis da capela de São João Baptista. A pedra calcária, rara nesta geologia de granito e xisto, mantém o relevo suave das dobras do manto da Virgem, mesmo depois de 500 anos de fumos de cera.
Caminhos que atravessam
A freguesia é atravessada pela variante interior do Caminho Português de Santiago, que aqui se desvia da estrada nacional para subir à aldeia de Avões e descer ao Douro por Santa Cruz. Os peregrinos param no café da D. Amélia, onde ainda se serve café de pota e pão com chouriço caseiro por 2 euros. A paisagem integra o Alto Douro Vinhateiro, classificado pela UNESCO em 2001, mas aqui os socalcos são mais estreitos, construídos à mão com xisto seco, muitos abandonados desde a reforma da PAC em 1992.
Celebrações e convívio
As festas marcam o ano: 2 de fevereiro, a Senhora das Candeias, com a bênção das velas na porta da igreja; 15 de agosto, a procissão da Senhora do Pilar sobe à capela do alto com os andores carregados pelos homens da aldeia; 13 de junho, Santo António, o padroeiro, com o bodo ao lado da fonte onde ainda se lavava roupa há 30 anos. Não há DOP nem IGP, mas há o fumeiro da Zélia — morcela de arroz, chouriça de vinho, toucinho fumado — que os netos levam para Lisboa no fim-de-semana. O arroz de cabidela faz-se com o sangue do galo de terra, abatido na véspera; os doces conventuais são os mesmo de sempre: pão de ló de ferradura, que ainda se faz no forno de lenha do sr. António, o último padeiro da aldeia.
Geografia habitada
Dos 426 habitantes, 50 são crianças na escola básica que ainda funciona com duas turmas mistas; 104 têm mais de 65 anos. Os três alojamentos locais são casas de família recuperadas: a Casa do Alpendre, a Quinta do Avô e o Cantinho da Ribeira, onde se dorme ao som da água. O Geoparque do Douro identificou aqui afloramentos do Devoniano, com trilobites fossilizados nas lajes da ribeira — os miúdos chamam-lhes «pedras com bichos». Às seis da tarde, quando a luz pousa nos muros de granito gretado, ainda se vê o sr. Albano a regar o nabal, como o pai fez antes dele, e a avó Ana a bater lenha para o fogão, como se o tempo não tivesse passado.