Artigo completo sobre Samodães: romaria de 3 mil no vale do Balsemão
Capela dos Remédios reúne freguesia de Lamego num ritual que multiplica a população por vinte
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O foguete rompe o silêncio do vale e o eco arrasta-se entre os socalcos de xisto. É o segundo domingo de setembro: a procissão saiu da igreja matriz e Samodães, que durante o ano dorme com 172 moradores, acorda com três mil pessoas a subirem a pé até à Capela de Nossa Senhora dos Remédios. Vai-se cantando, levanta-se pó na estrada de terra e cheira-se a bolo acabado de sair do forno das famílias que abrem a porta de casa. A 350 metros de altitude, a romaria não é folclore para turistas — é o dia em que toda a gente respira ao mesmo tempo.
A herança romana que ninguém lhe tira
Samodães vem de Samellus ou Samodius, nome de um latifundiário que por cá andou antes de haver freguesia. Ficou-lhe o nome e ficou-lhe o marco miliário, hoje encaixado no cruzeiro da entrada — um pedaço de estrada romana que ia de Viseu ao Douro, agora servir de apoio ao homem do café que se encosta para fumar. A Igreja Matriz, de 1750 e papel timbrado do Estado, tem um retábulo barroco que dá para doer os olhos e azulejos que ensinavam a Bíblia a quem não sabia ler. O azul-cobalto ainda está lá, vivo como no dia em que o pintaram; o resto do país perdeu metade dos seus, aqui guardaram-se todos.
Chanfana, papas e o vinho que se bebe no quintal
A chanfana leva cabrito, vinho tinto do Douro e uma quantidade de salsa que faz o rubi parecer pálido. Serve-se na panela de barro que veio do forno e não arrefece enquanto houver conversa — o que, nestas paragens, é o mesmo que dizer nunca. Nas romarias, as papas de milho com feijoca são a primeira coisa a desaparecer; os enchidos de sangue com alho vinhateiro são a segunda. Para a sobremesa, doce de figo em forma de pera e rebuçados de noz que partem os dentes se não se tiver paciência. O vinho é de mesa, branco ou tinto, chama-se Terras do Dão mas sabe a xisto daqui. Na Quinta do Cerrado o lagar ainda é de pedra e a pisa faz-se com pés descalços, se for preciso.
Trilho entre azinheiras e o medo de pisar um cogumelo
O Trilho de Samodães faz cinco quilómetros, começa na igreja, desce ao Balsemão e sobe outra vez pelos socalcos onde antes se plantava vinha. Passa-se pelo souto de azinheiras da capela: em março aparecem cogumelos que só os locais sabem quais são os bons — o resto do pessoal olha e passa. O miradouro mostra o vale do Douro, mas Samodães fica fora do sítio da UNESCO, o que para nós é preferível: pagamos menos de IMI e temos a mesma vista. Os muros de xisto que descem a encosta são como rugas: cada uma conta um ano de trabalho.
Torno, Fogo da Velha e o peregrino que se atrasa
O torno manual ainda abre as comportas de rega; dá trinta voltas para a água ir para a levada e serve para os braços o que a chanfana serve para a alma. No Natal, queima-se o "Fogo da Velha" — um tronco grande que arde na véspera e faz as crianças acreditarem que o Pai Natal vem de tractor. Na Páscoa, leva-se o crucifixo de casa à igreja para o padre abençoar tudo de uma vez: é o "Encontro das Cruzes", e se alguém leva a cruz do avô ninguém estranha.
O Caminho Interior de Santiago corta a aldeia de lado a lado. Os peregrinos chegam a pensar que vão só beber água e ficam a ouvir o sino da matriz misturado com o Balsemão lá em baixo. Quando se dão conta, o dia já foi e têm de marcar quarto na casa da dona Albertina — que não é hotel, mas tem lençóis cheirados a sabão caseiro e pequeno-almoço com doce de tomate.