Artigo completo sobre Sande: vinhas em socalco e caminhos de Santiago
Freguesia duriense onde peregrinos e viticultores partilham ruas de granito e romarias antigas
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O sino da igreja toca três vezes ao fim da tarde, e o som arrasta-se pelas costas das vinhas como quem não tem pressa. Em Sande, o granito das paredes ainda guarda o calor do dia; ao mesmo tempo, sobe da leira o cheiro a cavalo suado e a folha de videira pisada. Não é um perfume, é o cheiro do trabalho que não mente: indica que a vindima atrasou-se e ainda se faz à luz do sol poente.
Entre vinhas e peregrinos
São 811 almas, mas a freguesia parece menor quando o autocarro das oito e vinte desce a curva e leva os miúdos para Lamego. Fica-se o silêncio, o cão do Silvério a ladrar às galinhas, o ranger da porta do Bar do Crispim. Aqui cruzam-se dois Caminhos de Santiago: o Interior e o de Torres. Os peregrinos aparem de mochila baixa, pedem água na fonte da Rua do Calvário e continuam. Poucos ficam. Quando ficam, é porque se sentaram no muro da igreja e adormeceram — o vale aquece-lhes as costas.
A romaria que marca o calendário
Dia 8 de setembro, logo depois da vindima, ergue-se o arco de palha na boca da rua. As mulheres levam para o ador flor de papel crepom e o menino Jesus de traje novo. Não há banda filarmónica — há o trio de concertina, bombo e clarinete que o tio do Zé Alberto monta há quarenta anos. Às onze da manhã o padre sai com o andor; atrás vêm as velhas de véu preto, os homens de camisa abotoada até ao pescoço, os miúdos descalços que se penduram nas balaustradas para ver a procissão subir a ladeira. Durante três dias a padaria abre às seis, o Bar do Crispim serve imperial a 1,20 € e a carne de porco frita acaba antes de escurecer.
Vinhas que descem até ao vale
Os socalcos não são geométricos — são o que a pedra e o tempo permitiram. Quem os fez não usou esquadro; usou a enxó, o burro, as mãos rachadas. Ainda se planta a mão, ainda se carrega o cacho em alhada de vime que pesa no ombro. No outuno, as vinhas tingem-se de laranja-ferrugem e a leira parece incandescente ao meio-dia. O xisto estala sob a sola do sapato; a terra, quando se vira, exala um cheiro de sangue seco. O vinho que nasce aqui não leva nome de quinta — leva o nome do pai ou do avô e sai em garrafões de três litros para a mesa de Natal.
O que se come
Não há menu. Há o que a vizinha traz: alheiras de cortiça fumadas em outubro, couve-portuguesa que aguenta o primeiro gelo, broa amassada às seis da manhã e cozida no forno do pão ao sábado. Na noite de S. João, come-se sardinha assada no ferro de grelhar emprestado, regada com vinho tinto que mancha a toalha de linho crus. Quando aparece um forasteiro, oferece-se logo um copo — é copo de pé esguio, feito na fábrica de Santa Comba, e enche-se até à borda.
Caminhar devagar
Quem vem de fora fica perdido no entroncamento de Vilarinho: o sinal está partido e o GPS aponta para o rio. Segue-se por instinto, desce a estrada de paralelo, passa o cartaz de “vende-se tinto” pintado em lata branca. Sande aparece de repente: primeiro a torre da igreja, depois o cheiro a lenha, depois o silêncio. Não há bilheteira, nem loja de recordações — há o banco de madeira sob o plátano, o vale a cortar a respiração, o sino que toca outra vez, agora para avisar que são sete horas e o céu está a rodar para roxo.