Artigo completo sobre Alcafache: pedra romana e queijo da serra em Mangualde
Ponte medieval, forno comunitário e pastorícia tradicional numa freguesia beirã de 811 habitantes
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O frio húmido da manhã sobe do Sul e bate na ponte como quem acorda os ossos. Dizem que é romana, mas o certo é que o carro lá passa abanado, e se reparares bem no lado esquerdo ainda vês um pée-de-galo marcado na pedra — era o sinal dos peregrinos que iam a Santiago pela "estrada de Viseu". Em janeiro a água mostra as costelas do arco; o resto do ano corre cheia e leva folhas de nogueira como se fossem barcos de criança.
Às sete e meia já se sente o pão de milho que a D. Lurdes mete no forno comunitário. São quatro pessoas que ainda fazem rodada: cada sábado leva a massa de casa, abre a boca do forno com a pá comprida e depois divide o recibo da lenha. O forno fica ao lado da Casa do Povo; quem quiser pão, bate à janela da farmácia e pergunta por ela.
Al-Kafāḥ, lugar de pastagem
O nome vem dos mouros, mas o que importa é que ainda hoje se diz "vou à pastagem" quando se desce para o Sul. Há três rebanhos de ovelhas da Serra que passam o inverno aqui; o queijo compra-se à porta, mas leva talão se quiseres DOP, senão levas o queijo bom na mesma e fica mais barato. A casa do Sr. António é fácil de encontrar: xisto com porta azul, cheiro a cura e gato malhado que não gosta de estranhos.
A igreja é do séc. XVIII, mas o que vale a pena é entrar por causa do retábulo. O sacristão acende as velas se lhe pedires com jeito; senão, espia só pela grades e vais ver a talha dourada a faiscar como escova de dentes nova. Em frente há um coreto onde a banda toca no domingo da Trindade; levam cadeiras de casa porque há duas que partiram em 97 e nunca mais foram arranjadas.
O que se come (e quando)
- Chanfana: só de cabrito, panela de barro, vinho do Dão. A Teresa da Tasca faz sob encomenda — telefona com dois dias de antecedência, levas garrafa incluída.
- Ensopado de borrego: na Quinta do Rio, servem às refeições marcadas. Acompanhado com broa que eles próprios assam; se sobrar, levas para casa embrulhado em papel de alumínio.
- Bolinhos de São Sebastião: aparecem na romaria de 20 de janeiro. Custam 1 €, vão em saquinhos de papel vegetal e aguentam uma semana — se durarem.
Trilhos e levadas
O PR2 começa mesmo em cima da ponte. São oito quilómetros; leva garrafa porque só há água na Póvoa, a meio. Os moinhos estão todos fechados, mas o do meio tem a roda ainda presa — dá para fotografia e para fazer de conta. O troço de kayak é só depois de janeiro e só se souberes nadar; o senhor do café embaixo aluga os barcos e leva-te de carrinha à partida. Diz-lhe que não tens pressa e ele faz-te desconto no fino depois.
Festas que ainda se aguentam
- Domingo de Páscoa: cortejo dos Rapazes. São sete miúdos com bombos, um deles ainda não sabe bater, mas tem tio que toca concertina. Começam às dez na Igreja Matriz e acabam na Tasca com sandes de vinho e açúcar.
- 13 de junho: arraial de Santo António. Há concurso de bolos de milho; ganha quem levar o que a D. Alda não fez — ela é juíza e não pode concorrer.
- 5 para 6 de janeiro: os janeireros ainda despertam as casas. Leva chouriça para trocar, senão ficas a ouvir os Reis até às tantas.
Onde ficar
- Casa da Ponte: quarto com kitchenete, vista para o rio. A dona deixa lenha cortada e ovos das galinhas dela. Liga antes, porque ela vai aos mercados às quartas e fecha tudo.
- Quinta do Rio: dois quartos, piscina na berlinda. Servem jantar se combinares — avisa que não comes chanfana, senão ficas com sopa de couve e olhos na testa.
Dica de despedida
Se fores ao fim da tarde, fica na ponte até o Sol se pôr por trás do monte. O granito fica cor de mel e ouves o barulho da água a bater no arco como se fosse a aldeia a dar boleia ao dia. Diz a lenda que quem atravessar com má vontade tropeça sete vezes; o que eu sei é que, se calçares sapatos com sola lisa, tropeças na primeira pedra solta — pecado ou não.