Artigo completo sobre Fornos de Maceira Dão: onde o granito encontra o Dão
Entre vinhas, queijarias e pinhais, uma freguesia de Mangualde com Monumento Nacional
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O fumo sobe devagar das chaminés, desenhando linhas verticais contra o céu cinzento de Janeiro. Em Fornos de Maceira Dão, o nome não mente: há quatro fornos de lenha ainda em uso, dois de pão e dois de cerâmica, e o cheiro a madeira queimada mistura-se com o aroma do eucalipto molhado quando a bruma desce do Monte do Castro. A 443 metros de altitude, entre o vale do Dão e os contrafortes da Serra da Estrela, esta aldeia de 1308 almas estende-se por dezasseis quilómetros quadrados onde o granito aflora entre os campos de centeio e os pinhais que sobreviverem ao incêndio de 2017.
O queijo que se faz às seis da manhã
A localização é tudo. Fornos fica naquele lugar preciso onde o Dão encontra a Serra - nem vale, nem serra, mas ambos. O resultado sente-se às seis da manhã, quando o Zé Mário começa a aquecer o leite na salga e o aroma do coalho se espalha pela Rua do Chão. Aqui faz-se queijo com leite de ovelha Bordaleira que pastam nos campos acima da igreja, e o curado fica no lagar da Dona Alda durante noventa dias, virado todas as semanas para a perfeita crosta laranja. As vinhas são poucas - três ou quatro parcelas de família - mas o vinho que se faz na adega do Seixas é tão bom que os vizinhos de Penalva vêm buscar garrafas para os baptizados.
Caminhar pelos caminhos de terra batida que ligam Fornos à Casal Vasco é sentir o calcário moído sob as solas e ver os muros de pedra que o pai do Raul foi construindo ao longo de cinquenta anos. O cheiro a silagem vem do celeiro onde o Nel guarda feno para os seus cinco vacas, e quando o sol aquece a terra depois da chuva levanta-se aquele vapor doce que diz que é Janeiro e a terra está viva. O silêncio é tão completo que se ouve o cão do Toneco ladrar na aldeia de baixo, a mais de um quilómetro.
A igreja que tem um tesouro escondido
O monumento nacional não é qualquer coisa - é a Igreja de São Tiago, com o seu retábaro dourado que sobreviveu às invasões francesas porque a tia da D. Amélia o enterrou no quintal. O granito das casas - todas em L, com a porta principal virada a nascente e a adega a poente - vem da pedreira do Cabeço, onde o avô do atual presidente da Junta foi pedreiro e deixou marcas de cinzel ainda visíveis nas pedras mais altas. Os palheiros de quatro águas estão quase todos em ruínas, mas o espigueiro do Sequeira ainda guarda milho para as galinhas, com as suas pernas de pedra para manter os ratos afastados.
Onde os netos só vêm no Verão
Os números são o que são: 394 pessoas com mais de 65 anos, 129 crianças que ainda vão à escola primária do Casal Vasco porque a de Fornos fechou em 2012. Mas há quatro casas recuperadas - a da Dona Guida, a do tio António, a do Zé Mário e a do Seixas - que têm hóspedes durante as vindimas e na época da neve. São casas com paredes de metro e meio de espessura, onde o aquecimento é uma salamandra a lenha e o wi-fi vem do café da aldeia, que só está aberto quando o Joaquim não vai à caça.
O que se come quando se é daqui
Às quartas-feiras faz-se pão no forno do meio da aldeia, e é preciso chegar cedo para ter o pão de centeio mais moles. O queijo curado do Zé Mário tem aquelas olheiras perfeitas que só quem sabe quando virar o queijo consegue, e o requeijão da Dona Alda vem numa tigela de barro que ela compra ao oleiro de Viseu há trinta anos. O borrego é do António que cria quinze ovelhas no campo da Cabreira, e vai ao forno de lenha do Sequeira que tem cinquenta anos e ainda mantém a perfeição da brasa. O vinho é do Seixas, feito com uvas de três vinhas que o pai dele plantou em 1953, e tem aquele travo a terra queimada que só o Dão consegue.
Quando a luz da tarde vem do Monte do Castro, pinta as paredes caiadas de um dourado que parece que a aldeia está sempre em festa. Alguém fecha a porta da igreja - é o sacristão que vai para casa jantar - e o som do ferro com ferro percorre a Rua Direita como um sino. O fumo continua a subir das chaminés, vertical e persistente, desenhando no ar a única linha recta que esta aldeia conhece: a que liga o fogo da cozinha ao céu de Inverno, passando por todas as gerações que aqui deixaram o cheiro a lenha queimada e o som de uma porta a fechar-se para sempre.