Artigo completo sobre Freixiosa: pastorícia e vinhas no coração do Dão
Freguesia de Mangualde onde o queijo DOP e as tradições resistem ao envelhecimento rural
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O fumo sobe direito das chaminés, fino como um risco a carvão contra o céu cinzento de Dezembro. Freixiosa respira devagar — 234 pessoas distribuídas por sete quilómetros quadrados de encostas suaves, a 498 metros de altitude, onde o silêncio só é interrompido pelo ladrar distante de um cão e pelo arrastar de botas na calçada irregular. Aqui, no território do Dão, as videiras desenham geometrias exactas nas encostas, e o granito aflora entre a terra escura como ossos antigos.
Terra de pastores e queijeiros
Os números dizem mais do que qualquer discurso: 105 idosos para 18 jovens. É o café da padaria a abrir às sete da manhã para meia dúzia de clientes, o mesmo que ontem e anteontem. O Queijo Serra da Estrela DOP, o Requeijão Serra da Estrela DOP e o Borrego Serra da Estrela DOP não são aqui meras designações administrativas: são o que a Dora vende ao fim-de-semana na feira de Mangualde para pagar a luz, são as queijadas que a mãe da Célia faz desde que ela se lembra — o segredo é não pôr manteiga na massa, só no fundo da forma.
Nas manhãs frias, quando o nevoeiro ainda cobre os vales, o António vai buscar as ovelhas ao curral com o mesmo casaco de 1998. A lã espessa protege-as do frio cortante da serra próxima; o leite gordo e aromático transforma-se, pelas mãos de quem sabe esperar, em queijo que o filho do costume vem buscar às sextas para levar a Lisboa — "diz que lá vende isto por um balúrdio, mas eu cá não percebo nada dessas coisas".
Vinho que nasce do xisto e do tempo
A região do Dão estende-se até aqui os seus domínios, e as vinhas antigas — algumas com mais de meio século — agarram-se ao solo granítico com a teimosia de quem não desiste. Não há enotecas nem provas comentadas, mas há quem ainda guarde garrafões de tinto escuro na cave, vinho que o pai fazia no lagar da aldeia vizinha antes de fecharem. A vindima, em Setembro, é um dos poucos momentos em que a freguesia se agita: mãos cortam cachos, caixas empilham-se à porta das adegas, o mosto fermenta em cubas de inox que o Zé comprou quando a mulher lhe disse que chegava de estar a pislar uvas com os pés — "és homem doente, meu, não tens idade para estas coisas".
O peso do êxodo
Freixiosa não esconde as feridas do despovoamento. A densidade de 31,97 habitantes por quilómetro quadrado traduz-se em casas fechadas, portões enferrujados, jardins tomados por silvas. A única pensão é o quarto que a dona Amélia arranjou para o neto que nunca veio viver — agora mete lá quem precisa, mas é preciso telefonar com antecedência porque ela vai à missa das dez e depois às compras, só volta à uma. Não há multidões, não há roteiros instagramáveis, não há a azáfama que caracteriza outras aldeias "redescobertas". Há, isso sim, uma autenticidade involuntária: Freixiosa existe para quem cá vive, não para quem a visita — e quem cá vive está demasiado ocupado a viver para perder tempo com isso.
A luz da tarde poente bate nas fachadas caiadas, projectando sombras compridas sobre a terra batida. Ao longe, uma mulher fecha o portão do curral — é a Isabel, que foi para Lisboa aos 18 e voltou aos 60 para cuidar da mãe. O sino da igreja toca as seis. O fumo das chaminés continua a subir, direito e persistente, como se desenhasse no ar a biografia silenciosa de quem permanece — ou de quem ainda não teve coragem de ir embora.